A Editora Landmark na Imprensa
"MARCELLO CASTILHO AVELLAR

Ao longo de todo o século 20, cinema e televisão flertaram constantemente com o romance ""O morro dos ventos uivantes"", da inglesa Emily Brontë (1818-1848). A versão mais célebre do filme nas telas, dirigida por William Wyler, lançou no cinema americano a estrela imortal de Laurence Olivier, que dividia a tela com a belíssima e exótica Merle Oberon e um time de coadjuvantes de qualidade incomum, como David Niven, Flora Robson e Geraldine Fitzgerald.

Como boa parte dos grandes flertes entre cinema e literatura, as adaptações de ""O morro dos ventos uivantes"" foram marcadas por um ostensivo processo de traição e adulteração do enredo original. O fato de a maioria delas ter um ponto em comum acaba falando bastante do próprio livro, da indústria cultural, da contradição entre uma narrativa de óbvio apelo popular que, ao mesmo tempo, tem algo que não pode ser apreendido pela cultura de massas. Quem já leu o livro e viu algumas das versões cinematográficas sabe exatamenteonde ocorre o corte. O cinema é apaixonado pelos 16 primeiros capítulos de ""O morro dos ventos uivantes"". São aqueles que contam a primeira parte da trágica história de amor entre a aristocrática Catherine Earnshaw e o plebeu Heathcliff, condenada ao fracasso pela rígida estrutura de classes da Inglaterra pré-moderna.

O órfão Heathcliff é albergado pelo bondoso senhor Earnshaw. Ainda na infância, entra em guerra declarada com o filho mais velho de seu protetor, e se envolve com a filhamais nova, Catherine, numa relação que transcende a matéria e os une numa dimensão quase transcendental. À medida que crescem, os caminhos dos dois se distanciam: Heathcliff, trabalhando como servo dos Earnshaw, torna-se cada vez mais selvagem e arredio, enquanto Catherine desabrocha em beleza e desperta o interesse de um jovem aristocrata vizinho, Linton. Sentindo-se traído, Heathcliff desaparece, voltando tempos depois, rico e cínico, apenas para encontrar Catherine casada com o antigo pretendente. A paixão entre os dois se mostra mais intensa na mesma proporção em que caem suas possibilidades de realização, e conduz à morte de Catherine. O cinema costuma parar aí. Corta da maldição de Heathcliff (ele condena o espírito de Catherine a vagar pela Terra e a não encontrar descanso, porque o herói não suportaria continuar a viver sem ela por perto) para a morte dele, chamado, finalmente, pelo fantasma da amada. No processo, suprimem-se 18 capítulos da narrativa original de Emily Brontë, aqueles que tratam da decadência de Heathcliff e de sua vingança contra todos os que considera terem sido responsáveis pelo fracasso de seu amor e pela morte de Catherine. O corte é emblemático. A indústria cultural quer a grande história do amor que supera até mesmo a morte, mas não é capaz de encarar a decadência moral. Emily Brontë aprecia a tal história de amor, mas está realmente interessada nas conseqüências morais, sociais e filosóficas dela. Não é difícil pensar tanto o cinema quanto a autora a partir dessa diferença. A indústria cinematográfica busca emoções fortes, mas morre de medo de confrontar o público, de se arriscar a incomodá-lo. A escritora tímida, que abandonou o único emprego que teve pela incapacidade de lidar com pessoas estranhas e viver fora da segurança do lar, assumiu aquele confronto, teve a coragem de pintar o choque social como algo paralelo ao confronto afetivo. E fez isso com as mesmas cores fortes e apaixonadas com que descreveu o espaço cheio de charnecas e casas solitárias, onde passou a maior parte de sua vida. Amaioria de nós–produtores e diretores de cinema inclusive – costuma pensar em ""O morro dos ventos uivantes"" como história de amor. É só verificar a influência que Emily Brontë teve sobre outro gênero para percebermos que as coisas não são tão simples. A narrativa de romances do século 19 teria continuado seu curso quase sem sofrer alterações se a autora não tivesse, no maior rasgo de coragem que teve na vida, publicado ""O morro dos ventos uivantes"" em 1847, pouco antes de morrer. Sob pseudônimo masculino, que o costume da época na Inglaterra não tinha bons olhos para mulheres escritoras. Se quisermos saber qual genealogia da literatura teria crescido atrofiadas e o romance não fosse conhecido, precisamos voltar os olhos às histórias de monstros oufantasmas que constituem o núcleo da narrativa de terror. É possível que nenhum outro romance, à exceção de ""Frankenstein ou O novo Prometeu"", de Mary Shelley, tenha influenciado tanto o terror quanto ""O morro dos ventos uivantes"". Vamos encontrar sua estrutura de narração dentro da narração, funcionando como interface entre o mundo físico e a realidade sobrenatural, desenvolvida por clássicos como Lovecraft e Poe, e modernos como Wes Craven e Stephen King. Incialmente, nem Emily Brontë nem Mary Shelley desejavam fazer romances de terror. Num mundo que relegava as mulheres a segundo plano, a expressão da subjetividade feminina só seria possível em seu grau máximo em narrativas que introduzissem um elemento de estranheza neste mundo. A freqüência com que alguns dos mais rebeldes autores dos últimos 150 anos, como Albert Camus, Sylvia Plath ou Joseph Conrad, demonstram em suas obras o fascínio que sentiram ao ler ""O morro dos ventos uivantes"" parece mostrar como a narrativa de Emily Brontë saiu de suas páginas para se tornar repertório de toda a cultura contemporânea. Aquela subjetividade é marcada por posições ambíguas, que transforma as personagens de ""O morro dos ventos uivantes"" (assim como ocorre em Frankenstein) em criações singulares. São, por um lado, personagens românticas por excelência: vivem descompasso entre desejo e satisfação, instinto e ética, não conseguem viver plenamente dentro das regras que o mundo lhes impõe, são incapazes de emoções vulgares ou pequenas. A singularidade de Heathcliff, contudo, está em sua perversidade. Ele não é um homem que se inclina naturalmente para a bondade mesmo se em algum momento erra, como o Jean Valjean de ""Os miseráveis"" (VictorHugo), nem o homem bom que cede à tentação como o ""Fausto"" (Goethe).Heathcliffémau, é anti-social, é destruidor. Não é ele quem se redime pelo amor, a renúncia ou a morte, como é comum nos romances do período. Somos nós, leitores,quem o redimimos. Perdoamos todo o mal que ele produz em volta, e não apenas por saber que a morte de Catherine representou para ele martírio suficiente. Nós o perdoamos pela intensidade d apaixão. Porque percebemos em seus sentimentos uma força que gostaríamos de perceber nos nossos. Se o romantismo, como estética da era burguesa e capitalista, foi a arte de uma época que disciplinou corpos e mentes, que decretou a supremacia da organização do trabalho, do pensamento e da sociedade, produziu também essa contradição: amamos ""O morro dos ventos uivantes"" por perceber, ali, o triunfo da indisciplina afetiva, da desordem nas hierarquias, da mistura dos mundos. Nossos sentimentos aburguesados e disciplinados reconhecem, ao ler romances como este, o quanto temos saudade de um mundo marcado pelo descontrole – mesmo se sua existência depende, pelo menos em parte, de algo sobrenatural."

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