A Editora Landmark na Imprensa
"Roberto de Sousa Causo O Último Homem/The Last Man, Mary Shelley. São Paulo: Landmark, 2007, 494 páginas. Tradução de Marcella Furtado. É uma ótima surpresa que o segundo romance de ficção científica escrito por Mary Shelley (1797-1851) tenha finalmente se tornado disponível em língua portuguesa, tantos anos após sua publicação em 1826. A escritora é famosa pela autoria de Frankenstein (1818), romance gótico considerado quase que unanimemente - depois que Brian W. Aldiss defendeu a sua causa - como o primeiro romance da ficção científica moderna. O Último Homem/The Last Man é uma edição bilíngüe inglês/português, o que o faz, na verdade, a edição mais recente da obra, também na sua língua original, já que a última edição em inglês que pudemos localizar é de 1998, pela Oxford University Press. Faz parte de uma coleção que inclui A Divina Comédia, de Dante Alighieri, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, e As Crônicas do Brasil, de Rudyard Kipling, todos em edições bilíngües. (Veja mais no site da editora em http://www.editoralandmark.com.br/) Mary Shelley foi a esposa do poeta romântico inglês Percy Bysshe Shelley (1792-1822), parte da coterie de outro monstro sagrado do Romantismo britânico, Lord Byron (1788-1824). Essa associação literária e as circunstâncias envolvendo a inspiração para Frankenstein - uma espécie de workshop na Vila Diodatti, Suíça - têm fascinado leitores e literatos ao longo de décadas. Um autor brasileiro grandemente interessado nessas circunstâncias foi Rubens Teixeira Scavone (1925-2007), que escreveu ensaios sobre ela (um deles incluído no seu livro Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas) e que planejava ambientar um romance em torno de Mary. Outros foram seduzidos por projetos semelhantes, como o argentino Federico Andahasi no elogiado romance Las piadosas (1999), mas centrado em um outro personagem de Vila Diodati, o médico John Polidori (1795-1821), autor do romance de horror The Vampyre (1819). Fica claro, porém, quando lemos O Último Homem/The Last Man, que Mary Shelley possuía ela mesma um fascínio semelhante pelo grupo de amigos, no interior do qual ela basicamente experimentou boa parte de sua vida adulta. O romance é uma história de fim de mundo narrada por Lionel Verney, filho de um nobre inglês que perdera as graças do Rei, em razão das maquinações ciumentas da Rainha, em fins do século 21, o que mantém um lastro milenarista presente no romance. Lionel e sua irmã Perdita acabam conquistando a amizade do filho do rei e herdeiro do trono, Adrian, um jovem aristocrático na atitude pessoal, mas politicamente republicano. O futuro apresentado por Mary mantém a idéia de um Império Britânico. Fala-se de balões dirigíveis (embora muito do transporte realizado no romance seja a cavalo) e de máquinas que dão conta das necessidades humanas, mas a base econômica, conforme descrita, parece ser a mesma que a autora conheceu: latifundiários e meeiros, pequenos comerciantes. O radicalismo político e social no qual Mary cresceu, sendo filha da feminista Mary Wolstonecraft Godwin e do filósofo anarquista William Godwin, aparece na sua proposição de uma república na Inglaterra. Alguma atenção é dada à política - mas esta parece dever mais ao poder oratório e à projeção de personalidade dos heróis, do que a questões partidárias, equilíbrio de poderes ou representantes de grupos de interesse. A autora não se centra tampouco na especulação social e científica, mas na narrativa dentro das características do Romantismo, com direito a uma prosa elevada e retorcida, intrigas amorosas, suicídios por amor e aparições espectrais. Mas isso era o dado de estilo da época; o mais importante é como Mary Shelley optou por integrar dados de sua vida pessoal à narrativa, quase como homenagem àquele círculo de amigos íntimos reunidos em torno de Byron e Shelley: Adrian é irmão espiritual de Percy; o político e líder militar Lord Raymond reflete a figura e a trajetória de Byron; Perdita a modelada em Clair Clairmont, meia-irmã de Mary; e Clara, filha de Verney, tem o nome da primeira filha de Mary com Percy, morta na infância. Os pais de Mary são citados ao longo do texto - que tem extensivas notas de rodapé assinadas pela tradutora Marcella Furtado, apontando citações de Shakespeare e de poetas e pensadores clássicos e românticos, que aparecem incógnitas no corpo do texto. A ambientação descreve a paisagem favorecida pela coterie de Byron. A primeira metade do romance narra as realizações militares de Raymond na Grécia, em sua luta contra o controle jugo turco (Byron teve participação ativa no conflito). É possível reconhecer o argumento do choque entre o mundo cristão e o muçulmano, nesse romance de 1826. E é na arruinada Istambul que surge a praga que levará ao fim da civilização. Brian Aldiss defende que Mary estaria apenas agravando, em seu romance, uma praga de cólera surgida na Índia em 1816 - a doença alcançou a Inglaterra em 1831. Ela domina a segunda parte do romance, que se centra ainda mais nos membros da coterie correspondente, da qual Verney faz parte. Sempre buscando o efeito do sublime, Mary Shelley não desce aos detalhes mais grotescos da peste, embora os poetas românticos como Percy e Byron freqüentemente buscasse aproximar o grotesco do sublime. Um dos aspectos mais interessantes de uma divisão clara entre o que está reservado, de forma degradante, ao resto da humanidade, e o que se dá com os membros da coterie, aparece no fato de que nenhum deles morre em conseqüência direta da peste. O enfoque da praga deve ao romance de Daniel Defoe, A Journal of the Plague Years (1722), e à obra francesa Le Dernier homme (1806), de Jean-Baptiste Cousin de Grainville, mas certamente a ênfase na estreita amizade e o amor mútuo entre os personagens marca o romance com uma qualidade dramática particular, que colore toda a exploração da catástrofe que se abate sobre a condição humana. Conforme Verney avança na narrativa, aumentando a solidão de quem perdeu os seus entes mais queridos, ele enfatiza com a mesma sensibilidade exaltada imagens de um último homem sobre a Terra, apreciando as realizações de uma civilização que já parece extinta, mas ainda em busca de companhia humana. Com respeito à tradução, não me pareceu perfeita. Louva-se, porém, a coragem da tradutora - não é qualquer um que coloca a sua versão ao lado do original. A propósito disso, às vezes a tradução parece um pouco prejudicada pela aparente necessidade de seguir os pontos de início e fim de cada parágrafo, para que as duas colunas, em duas línguas, não se afastassem muito. De qualquer forma, está é uma edição diferenciada de uma obra que até então permanecera inacessível à maior parte dos leitores brasileiros. Seu aparecimento oferece ao leitor uma chance de comparar o quanto esse subgênero da ficção científica evoluiu, em um ano em que foram publicados também outros fortes exemplos: Celular, de Stephen King, e A Estrada, de Cormac McCarthy. *Jeremias Moranu colaborou com as revistas Cult e Starlog Brasil, e é autor de A Deusa do Amor (Cristal Editora, 1999). "

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