A Editora Landmark na Imprensa
"O escritor, que completaria 150 anos, passou do ridículo à adulação, da adulação à fama, da fama triunfal ao escárnio, à desgraça e ao desprezo.

Não muito mais de sete anos. Se tomarmos grosso modo a produção pela qual o irlandês Oscar Wilde (1854-1900) ficou conhecido - excetuando ""De Profundis"", carta que escreveu a seu amante lorde Alfred Douglas, e o poema ""A Balada da Prisão de Reading"" - tudo veio a público num curtíssimo espaço de tempo, entre 1888 e 1895, desastrosa batalha judicial travada contra o marquês de Queensberry. Como se sabe, Wilde processou o marquês, que deixara no Albermale Club um cartão com os dizeres ""A Oscar Wilde posando de sodomita"", mas o tiro saiu pela culatra. Queensberry, pai de Douglas, conseguiu reverter a ação, e Wilde foi condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados, por ""crime de homossexualismo"". Ao pronunciar a sentença, o juiz vergastou: É inútil dirigir-me ao senhor. Pessoas capazes de fazer essas coisas devem ser insensíveis a qualquer sentimento de vergonha ... Devo pronunciar a sentença mais severa que a lei permite”. Curiosamente, no início do em que Oscar Wilde foi encerrado em cárcere, o príncipe de Gales compareceu de uma das bem-sucedidas peças do autor. Esse rápido revés da fortuna, fez com que o filho mais novo de Wilde, Vyvyan declarasse décadas depois: ""Jamais a reputação de um escritor passou por tantas fases diferentes - do ridículo à adulação, da adulação à fama, da fama triunfal ao escárnio, à desgraça e ao desprezo...” A trajetória de Wilde, de quem no próximo dia 16 de outubro celebra-se o sesquicentenário, constitui uma das grandes tragédias da história da arte. Tragédia pelo que se lhe sucedeu em tempos de intolerância, mas principalmente pelo fato de o desfecho ter mostrado, e da forma mais amarga, que suas formulações estético-políticas não sobrevivem ao teste da realidade. O escritor, o mais renomado partidário britânico do esteticismo, afirmou no ensaio “A Decadência de Mentira”: “A arte encontra sua perfeição dentro, e não fora de si mesma. Não pode ser julgada por qualquer padrão externo, ou qualquer semelhança. Ela é um véu, e não um espelho”. Wilde foi vítima de seus ideais. Em “O Príncipe Feliz”, primeira das histórias que constam da recém-lançada edição bilíngüe de seus Contos Completos (editora Landmark), sua posição é mais ou menos explicitada de modo alegórico. Trata-se de um conto de fadas em que a extraordinária estátua de um príncipe de outrora, revestida de ouro e cravejada de pedras preciosas, encanta a cidade que a a abriga. Contudo, a estátua compadece-se do sofrimento dos miseráveis e, em parceria com uma andorinha, despoja-se de seus atabios valiosos, que a ave leva aos necessitados. No fim, convertida num momento sem nenhum atrativo, é demolida. “Como perdeu a beleza, perdeu também a utilidade"", afirma o professor de arte. Embora recheado de ironia, já que os dignitários da cidade agem com vileza, enquanto a ação da estátua é sublime, o conto deixa um recado claro: do ponto de vista artístico, se a obra render-se à funcionalidade, perde sua verdadeira e única função - a fruição do gozo estético. Por trás da postura de Wilde, encontra-se a antiga discussão sobre a autonomia da obra de arte. No século XIX, a chamada Revolução Industrial atingia seu apogeu. Junto a ela, a burguesia prosperava a olhos vistos, ditando normas e conquistando civilizações ultramarinas, numa segunda fase colonial. Na Inglaterra, esse fenômeno seguiu de mãos dadas com o reinado da rainha Vitória, empedernida era de moral puritana. A feiúra do processo industrial, tanto estética quanto moral (pois aviltava o trabalho), apontado, por exemplo, pelo pensador socialista John Ruskin, fez que muitos artistas buscassem na arte uma resposta a esse estado de coisas. E essa resposta foi: se a vida é feia e a arte bela, ainda que ilusória, vivamos na arte, vivamos a ilusão! Não nos cabe aqui discutir se essa atitude representou ou não uma posição burguesa, contra a qual se bateram os vanguardistas dos anos de 191O, que tentaram reintegrar a arte à vida. Para pessoas como Wilde, a arte não tem função. Não serve de nada. Muito menos a uma revolução. ""Toda a arte é demasiado inútil"", diz em O Retrato de Dorian Gray . Trata-se de uma radicalização de uma tese defendida por muitos artistas. Flaubert, assim como Henry James, procurou alçar o romance à categoria de arte, dotado de um funcionamento intrínseco, gerador de uma forma independente e artificiosa. Stéphane Mallarmé buscou, na poesia, obter o refinamento de uma linguagem sugestiva, rarefeita e abstrata, desencarnada das imundícies do cotidiano. Wilde queria mais do que isso, ansiava por apregoar a autonomia da arte. Não bastava que ela fosse autônoma: era preciso jogar isso na cara da sociedade. O autor chegou a excursionar pelos Estados Unidos fazendo palestras sobre os ideais do esteticismo. Seu comportamento e suas concepções foram ridicularizados pelos jornais americanos. Em O Fantasma de Canterville , Wilde dá o troco. No conto, uma família de milionários ianques recém-instalada numa propriedade assombrada da Inglaterra, chega ao cúmulo de sugerir que o pobre espectro usasse o lubrificante Sol Nascente em suas correntes barulhentas. Um dos modos de ler sua célebre história, portanto, é como um embate entre o prosaísmo e a praticidade da satisfeita burguesia puritana, de molde americano, em oposição a um ""modus operandi"" arcaico, invisível e incompreensível aos olhos da canalha contemporânea. Um fantasma, enfim, em sua impalpabilidade, não diferiria muito dos inefáveis estetas. Não é preciso esforço para deduzir quem vence a batalha, na visão sempre fatalista de Wilde. A grande novidade dos Contos Completos (que traz ainda os famosos ""O Crime de Lorde Arthur Savile"", ""O Pescador e Sua Alma"" ""O Aniversário da Infanta"" e ""O Gigante Egoísta""), é a história ""O Retrato de Sr. W. H."". O conto, escrito em 1889, foi publicado clandestinamente em 1897, desapareceu de circulação e só foi integrado às Obras Completas em 1973. O assunto é bombástico: versa sobre a suposta homossexualidade de William Shakespeare. Num estilo que lembra um gênero de conto que Borges iria futuramente celebrizar, os personagens procuram provar, por meio de uma leitura pouco ortodoxa dos ""Sonetos"", que afigura a quem os poemas foram dedicados, W. H., não foi, conforme se pensa, o terceiro conde de Penibroke, William Herbert, mas um jovem ator, Willie Hughes; que interpretava os papéis femininos em suas peças e por quem Shakespeare estaria apaixonado. Logram os exegetas, inclusive, a mostrar que o rival do bardo ao coração do mancebo foi outro grande dramaturgo isabelino, Christopher Marlowe. Mas falta a prova cabal. Não há registro da existência de Hughes. Por isso, um dos personagens manda forjar um quadro, pintado à moda antiga, retratando o ator. Quando é desmascarado, o mandante da falsificação não se dá por vencido: o quadro é fictício, mas a história forjada é verdadeira. Tanto a idéia quanto a operação para comprová-la revelam ser fatais. Como em muitas de suas histórias, o criador da ficção, ou da arte, ou da ilusão, paga com a própria vida. Nesse caso específico, que espelha tragicamente a condição do autor, a temática homossexual serve para acentuar o desastre (""Penso que exista alguma coisa fatal a respeito dessa idéia"", pondera alguém). Wilde dizia não entender como a arte podia ser criticada do ponto de vista moral, pois arte e moral pertenceriam a esferas distintas. O fato é que a moral, ligada ao regulamento da conduta humana e, portanto, da vida, acaba imiscuindo-se no âmbito artístico. No fundo, embora possa criar uma realidade própria, a arte deve sempre sua parcela de respostas ao mundo, o qual, por sua vez, sente-se no direito de lhe pedir contas de forma por vezes violenta. Não enxergar isso é ter o sentido obscurecido pelo véu de que fala Wilde. Ele provou-o com sua experiência. Arte e vida estavam unidas para seu infortúnio.

Marcelo Pen"

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