A Editora Landmark na Imprensa
"por Alexandre Pilati Especial para o CORREIO

O público brasileiro tem mais uma oportunidade de travar contato com a obra densa, luminosa e cheia de poesia do poeta inglês Percy Bysshe Shelley (1792-1822) com a nova publicação de ""Uma Defesa da Poesia e outros Ensaios"". Na edição bilíngüe, o leitor terá oportunidade de conhecer também em inglês, ensaios que certamente cumpriram papel importante no delineamento da estética e do conceito de subjetividade que guiaram escritores dos séculos 19 e 20.

""Uma defesa da poesia e outros ensaios"" apresenta o espírito inquieto e minuciosamente especulativo de Shelley. O talento do jovem poeta (morto prematuramente em um naufrágio na Itália) exibe-se em textos que podem ser divididos em duas categorias abrangentes. A primeira delas compreende escritos cujo assunto central gira em torno de temas filosóficos, éticos e morais. Fazem parte desse conjunto os ensaios ""Sobre o amor"", ""Sobre a vida"", ""sobre a existência de uma vida futura"", ""Sobre as especulações da punição da morte"", ""Sobre a moral"" e ""A necessidade do ateísmo"".

Neles, é possível encontrar um Shelley que combate com fervor no terreno das idéias, sem perder as rédeas da elaboração do estilo poético, que é cultivado com cuidado no discurso dos ensaios. Assim, defesa de idéias e poesia caminham juntas, mostrando a luz de uma mente capaz de captar a exigência de seu tempo. No texto sobre a pena de morte, por exemplo, é impressionante o modo com que Shelley sublinha que a organização racional do mundo caminha juntamente com uma brutalidade surda, que faz o discurso em favor do bem aparecer com sua contraface de barbárie. É também marcarte a voz de Shelley em ""A necessidade do Ateísmo"", de 1811, que condensa as idéias que fizeram o poeta ser expulso da Universidade de Oxford. Diz ele a seco: ""Deus é uma hipótese e, como tal, permanece na necessidade de prova: o ônus da prova permanece com os teístas"". Há ainda trechos de uma beleza quase maneirista, que jogam com a delicadeza das metáforas e a torção de conceitos, como em ""Sobre o amor"": ""tão logo este querer ou poder [o amor] está morto, o homem torna-se um sepulcro vivo de si mesmo, e o que nele ainda sobrevive torna-se mera casa daquilo que foi um dia"".

Outro grupo de textos de ""Uma defesa da poesia..."" é o que trata da poesia e das artes em geral. Aí se encaixam os ensaios ""Sobre a literatura, as artes e os hábitos dos atenienses"", ""Prefácio ao Banquete de Platão"" e o texto de maior fôlego, que dá título à publicação. Nesses textos, Percy Shelley mostra conhecimento profundo da arte na Antiguidade Clássica. ""Uma defesa da poesia"" é uma argumentação cuidadosa, apaixonada e bela. Shelley arma-se de palavras e retórica para mostrar a imbricação entre a arte e a comunidade grega e como essa imbricação foi cambiando nas eras seguintes, contribuindo de modo decisivo com o vetor civilizatório da evolução humana. Segundo ele, as tragédias gregas eram ""como espelhos nos quais o espectador observa a si mesmo, sob um frágil disfarce de circunstância"". É por isso que para Shelley, como representação da grande arte, ""um poema é a própria imagem da vida, expressa em sua verdade eterna"". Eis porque ela é necessária.

Os ensaios de Shelley trazem, entretanto, muito mais do que isso. Lendo-os com atenção é nos concedido um mapa, ainda que difuso, das fronteiras que a arte e a subjetividade burguesa construíam para si mesmas no século 19. Trata-se do esforço de esquadrinhar, em tempo real, um contexto filosófico/ social onde, como diria outro ilustre inglês, o crítico Terry Eagleton: ""a arte ainda poderia falar do humano e do concreto, permitindo um descanso bem-vindo frente aos rigores alienantes dos outros discursos mais especializados, e oferecendo, no coração mesmo desta grande explosão e fragmentação dos saberes, um mundo residualmente comum"". Esses resíduos civilizadores da substância humana é que formam o delicado material de trabalho dos brilhantes ensaios de Shelley.

*Alexandre Pilati é Doutor em Literatura brasileira e poeta, autor de ""Prafora"" (7Letras, 2007)"

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