A Editora Landmark na Imprensa
"Para Anthony Burgess, autor do romance Laranja Mecânica, Robert Louis Stevenson (1850-1894) era um escritor superficial. Ressaltava, no entanto, que o melhor dele estava nas histórias de aventuras e em seus livros para crianças. Burgess considerava A Ilha do Tesouro ""uma obra-prima juvenil"". Quanto ao livro mais conhecido de Stevenson, A Estranho História do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde (The Strange Case of Doctor Jekyll and Mister Hyde), que o cinema popularizou com o nome de O Médico e o Monstro, que aborda a dualidade do bem e do mal, este talvez não fosse ""mais que um thriller bem escrito"".

Para Otto Maria Capeaux, seus dois romances de ambiente escocês (a Escócia é a terra natal do escritor), O Senhor de Balantrae (The Mister Of Ballantrae) e A Represa de Hermiston (Weir of Hermiston), que revelam o último e digno sucessor de Walter Scott, ""são obras-primas"". Em mais uma de suas inspiradas e lapidares definições, Carpeaux assinala que ""sonhando, imaginando, Stevenson foi o último dos românticos; escrevendo, foi o último clássico da prosa inglesa"".

A propósito, em seu livro Por que Ler os Clássicos, Ítalo Calvino conclui o conto ""O pavilhão nas dunas"" entre as estrelas de sua constelação de clássicos da literatura. Stevenson era também um dos eleitos de Jorge Luis Borges, um dos expoentes do altar literário do autor de O Aleph.

Apesar dessas referências, Robert Louis Stevenson é um autor hoje esquecido (à exceção de um ou dois títulos, como O Médico e o Mostro e A Ilha do Tesouro), ou pouco traduzido e editado no Brasil, a exemplo, aliás, de tantos outros colegas imortais que freqüentam o topo da pirâmide literária. Quando muito, é encontrado, ou jaz, nas prateleiras de um sebo, num sítio poeirento, roído pelas traças e pela umidade, num litoral de caluniadas lombadas, feito destroços, restos de um naufrágio.

Leitores veteranos se lembra de tê-lo visto ao lado de Emílio Salgari, Edgar Rice Burroughs (criador de Tarzan), Mayne Reid, R. M. Ballantyne e Jack London, semeando de aventuras - com direito a lobos-do-mar, bucaneiros, piratas e ilhas desertas - a Coleção Terramarear, da Companhia Editora Nacional, que talvez sobreviva nas estantes feito velhos mapas de tesouro esfarelados.

Se bem que o Stevenson da Coleção Terramarear, em vez de um Cervantes, de um Shakespeare, de um Stendhal, um Tostói, colegas daquele topo do mundo literário, ombreia-se a colegas mais humildes como os Salgari, os Reid e os Ballantyne. Mas, ao lado destes, ele nem precisaria de estantes onde alojar-se. Sem, às vezes, nos darmos conta, ele está presente na memória da nossa infância, preservado das traças, da umidade, do óbvio.

Nas ilhas das nossas primeiras leituras, cercada de recordações para todos os lados, ele está imortalizado como um clássico da infância na perene e florescente companhia de um Monteiro Lobato, de um Júlio Verne.

Mesmo que jamais tenha lido Stevenson, o leitor já terá topado com suas criações. Seus personagens criaram vida própria e saltaram para as telas do cinema, da televisão, dos palcos de teatro, adaptações e até histórias em quadrinhos.

Mas quem foi o autor de A Ilha do Tesouro? Robert Louis Balfour Stevenson nasceu em 13 de novembro de 1850 em Edimburgo, na Escócia, com saúde fraca, circunstância que iria determinar seu futuro como um dos mais famosos escritores do século XIX.

Assim descreveu sua vida ao amigo e escritor George Meredith: ""Durante 14 anos não tive um dia sequer de verdadeira saúde. Acordava doente e ia para a cama exausto. Mas executava minha tarefa inflexivelmente. Escrevi na cama e fora dela, escrevi em meio de hemoptises, escrevi doente, escrevi torturado pela tosse, escrevi quando minha cabeça tinha vertigens de fraqueza"".

Tuberculoso, viveu uma luta cotidiano e tenaz contra a morte, para tombar vencido, aos 44 anos, por um surpreendente derrame cerebral, e não da tuberculose que lhe acompanhou a vida breve.

Mau estudante, detestava estudar. Era tido como preguiçoso, o que ele não deixou de confirmar ao escrever ""Apologia aos Preguiçosos"". Mas sua imortalidade literária é tributária de quatro grossos volumes de correspondência, cinco volumes de viagens, sete de contos, nove de romances ou novelas, três de versos, três de ensaios, uma biografia e um estudo sobre a política nas ilhas dos Mares do Sul, nada mal para um preguiçoso que ainda teve a existência atormentada pela doença.

Por viver quase como um inválido, certos críticos apontaram-lhe uma vida confinada a gabinetes, e dessa falta de horizonte padeceriam seus romances. Mas esse quase-inválido excursionou pela Escócia, pelas costas da Inglaterra, percorreu de canoa a Bélgica e a França, atravessou em lombo de jumento as montanhas do centro da França, atravessou os Estados Unidos do Atlântico ao Pacífico e durante três anos bordejou por entre as ilhas dos Mares do Sul, depois de ter voltado mais de uma vez da Europa aos Estados Unidos. Como se vê, sua vida daria um romance.

A Ilha do Tesouro, esta obra-prima dos romances de aventuras, nasceu uma fria tarde de outono na Escócia de 1881. Stevenson, a mulher e o enteado (então com 13 anos), sentaram-se na sala para brincar com uma caixa de lápis de cor. O escritor desenhou um detalhado mapa de uma ilha e batizou-a de ""Ilha do Tesouro"". Foi o bastante para deflagrar o poder de sua imaginação. Dia após dia, entre acessos de tosse e noites de insônia, os personagens vão ganhando vida, especialmente o inesquecível pirata perna-de-pau Long John Silver.

Entre suas histórias, certamente a mais conhecida é A Estranha História do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, que a Editora Landmark acaba de lançar. com nova tradução e em edição bilíngüe. Popularizado como O Médico e O Monstro, a história teve diversas adaptações para o cinema. As mais famosas são as de Robert Mamoulian, nos anos 30, com Frederic March, que ganhou Oscar de melhor ator, e a de Victor Fleming, com Spencer Trancy, nos anos 1940. Vinte anos depois, Jerry Lewis se inspirou no livro para fazer a comédia O Professor Aloprado, refilmada com Eddie Murphy na década de 1990, sem esquecer a releitura Mary Reilly, com Julia Roberts e John Malkovich. O tom humorístico foi dado pela animação O Coelho e o Monstro, do Pernalonga (Bugs Bunny). No Brasil, com sua formação completa, o grupo Os Trapalhões lançou o filme O Incrível Monstro Trapalhão, em 1989, uma paródia à obra escocesa.

Escrito em 1886, o clássico de Stevenson conta a história de três amigos: Utterson - um advogado que acompanha os horrores acontecidos em Londres no final do século XIX por um homem que comete crimes e provoca a polícia metropolitana - e dois médicos famosos, os drs. Jekyll e Lanyos. O quarto personagem é Edward Hyde, um protegido do dr. Jekyll, sujeito de aparência hedionda e imprecisa. A curiosidade de Utterson o leva a investigar essa estranha criatura e suas ligações com o dr. Jekyll, desenrolando-se assim uma trama misteriosa e repleta de sutilezas psicológicas. O clima sombrio da capital inglesa contorna a história e dá o tom de mistério. O contexto histórico do país também é transcrito na trama: avanço nas pesquisas e experimentos científicos, êxodo rural devido a Revolução Industrial que ali se instalara, contraste econômico, centro urbano em estado de caos, fumaça, poluição e aumento dos índices criminais, motivo pelo qual em 1829 foi criada a Scotland Yard. Já foi dito que O Médico e O Mostro é o mais fiel retrato já feito da sociedade vitoriana inglesa. E boa (re)leitura."

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