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"RESENHA

Alfredo Monte

Freud Explica

Com seu gosto pelo umheimlich (o sinistro, o estranho), que estudou no grande escritor alemão E.T.A Hoffman (O Homem da Areia), Freud com certeza apreciaria ""O Médico e O Monstro"", enfim reconduzido no Brasil ao seu título correto, ""O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde"", em sua nova versão.

Esta novela (publicada em 1886) é um dos textos prediletos do responsável por esta coluna, que o colocaria em qualquer lista dos dez melhores so século 19. Aliás, é preciso enfatizar o gênio Robert Louis Stevenson, autor de obras primas como ""O Clube dos Suicidas"" e ""O Morgado de Ballantrae"" (e por que não ""A Ilha do Tesouro""?)

Todo mundo sabe atualmente que o Sr. Hyde é o Dr. Jekyll. Quem vai desvendando a história para o leitor, aos pedaços, é o severo e admirável Mr. Utterson, advogado do cientista, o qual fica intrigado e escandalizado com a ascendência do rude e marginal Hyde sobre seu cliente e amigo, agora recluso e insociável. Através de informações diversas, de cartas, de testamentos e confissões, Utterson acompanha um processo em que a porção Hyde prepondera cada vez mais e comete crimes mais e mais perversos, embora acabe revelando um ser desamparado, infantil e patético no final, acuado no laboratório de Jekyll.

Hyde representa o que Freud caracterizou como retorno do reprimido, a manifestação dos impulsos inconscientes na consciência que até o século retrasado parecia soberana de nossa mente e da nossa personalidade, tida como unívoca. Stevenson intuiu essa ilusão tão precisamente que até a maneira como os fatos vão se oferecendo ao leitor refletem a fragmentação de identidade do protagonista, abalando dos alicerces morais e éticos do vitoriano Utterson: ""agora sua imaginação também estava envolvida, ou melhor, escravizada...a figura nessas fantasias assombrou o advogado a noite toda; e se chegava a adormecer, ela surgia rapidamente, movendo-se de um modo furtivo... ou rapidamente, muito rápido, a ponto de rodopiar através dos vastos labirintos da cidade, a cada esquina pisoteando uma criança e deixando-a a gritar. E ainda que a figura não tivesse rosto pelo qual pudesse ser reconhecido, pois mesmo em seus sonhos ele não adquirira uma fisionomia, ou quando o possuía era embaraçado e se evaporava diante de seus olhos; e assim era que se espalhava e crescia na mente do advogado, com uma força singular, uma curiosidade quase exagerada de contemplar as feições do verdadeiro Senhor Hyde"".

Esse desejo de Utterson de confrontar o vilão que oprime seu amigo é muito natural. Utterson representa as forças da ordem, da razão, da repressão (o princípio da realidade). Hyde representa o irracional, o princípio do prazer assumido sem amaras morais ou considerações éticas, e deveria ficar mesmo hyde (escondido), não aflorar pelas ruas da maior metrópole do mundo, o coração da civilização. "

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