A Editora Landmark na Imprensa
"Dias atrás, vi e revi algumas cenas passadas no Senado Federal. A primeira impressão é que estava assistindo a um filme de terror. Que nada! Eram os olhos ardendo feito brasa de um pretérito presidente de República, depois de um raro processo de impeachment, metamorfoseado recentemente em senador pelo seu estado natal, Alagoas.

Fernando Collor, ao defender outro nome que ocupou o cargo máximo da nação, o maranhense José Sarney, não assustou com uma face eletrizada apenas o colega de Senado, o gaúcho Pedro Simon, mas os telespectadores, primeiro os da TV Senado, depois os das outras emissoras, que puderam contemplar o olhar alucinado de um político.

Os olhos estatelados de Collor me obrigaram a um recuo de natureza cinéfila e temporal. Para ser mais exato uma volta ao ano de 1941, quando o cineasta Victor Fleming dirigiu o grande ator Spencer Tracy na até hoje mais famosa versão de ""O Médico e o Monstro"", a obra-prima do escocês Robert Louis Stevenson, gestada em 1886.

Naquele instante, na tribuna do Senado, o outro caçador de marajás torna-se a mais perfeita encarnação do Mister Hyde, a versão demoníaca e selvagem do pacífico Doutor Jeckyll, dupla formada a partir do mesmo eu protagonista do livro de Stevenson, um mestre da literatura de horror e de aventura, até hoje não valorizado como devia.

Uma coincidência de caráter performático e interpretativo une a sublime atuação do ator Spencer Tracey aos instantes de Collor naquela ilustre casa do Planalto Central. Tracy não usou nenhum tipo de maquiagem para compor o ultrajante vilão, que termina o filme assassinado pelo personagem de Donald Crisp, outro ator de linhagem shakespeariana, após infernizar a vida da sofrida e bela Ingrid Bergman.

Spencer Tracy usou apenas os movimentos faciais, a interação entre cabelos, olhos, nariz e boca, criando uma metamorfose ambulante e aterradora, sugerindo a própria entrada em cena do que podemos chamar, sem medo, de Mal Absoluto.

A propósito, a obra de Robert Louis Stevenson, a novela de terror gótico, passada em uma Londres incrivelmente sombria, o livro ganhou recentemente uma edição bilíngue no Brasil, a cargo de Fábio Cyrino e da editora paulistana Landmark.

No livro, o autor escocês traz a tona um tema essencialmente psicanalítico, que desnuda os múltiplos limites e possibilidades da alma humana, em especial, o tema do duplo, que contaminaria a literatura do século seguinte, o desvairado XX. Sem Stevenson e o dilaceramento do ser de Jeckyll e Hyde, não haveria literatura em labirinto do argentino Jorge Luis Borges. Nem a vocação performática do senador alagoano. "

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