A Editora Landmark na Imprensa
"""O senhor Verloc depositou a gaveta de dinheiro no criado-mudo e começou a operação de se despir ao arremessar seu sobretudo em uma distante cadeira. Depois, seguiram-se seu casaco e seu colete. Ele caminhou pelo quarto com seus pés vestidos, e sua figura robusta, com as mãos correndo nervosamente pela sua garganta, passou e repassou pela longa faixa espelhada na porta do armário de sua esposa. Depois, deslizando suas braçadeiras pelos ombros, ele empurrou violentamente a persiana e apoiou sua testa contra a fria janela — um frágil filme de vidro estendido entre ele e a enormidade da fria, negra, úmida, inóspita acumulação de tijolos, telhas e pedras, coisas das quais um homem não pode ser amigo e nem amar.

O senhor Verloc sentia a inimizade latente de tudo além das portas com uma força que se aproximava da positiva angústia corporal. Não havia nenhuma ocupação mais capaz de frustrar um homem do que a de um agente policial secreto. É como se seu cavalo de súbito caísse morto sobre você, em meio a uma planície deserta e sem água. A comparação ocorreu ao senhor Verloc porque ele havia montado vários cavalos de exército em sua juventude, e tinha agora a sensação de uma queda incipiente. As perspectivas eram tão negras como a janela contra a qual ele agora apoiava a testa. E repentinamente o rosto do senhor Vladimir, bem barbeado e sarcástico, surgiu enevoado no brilho de sua compleição rósea, como uma espécie de foca rosa, impressa na escuridão fatal.""

""Diante do grande corredor, uma pequena fileira de jornaleiros parados for a da calçada, vendia seus materiais na sarjeta. Era um dia sombrio e cru, no começo da primavera; e o céu sujo, a lama das ruas, os andrajos dos homens imundos se harmonizavam perfeitamente com a erupção de folhas de papéis úmidas e emporcalhadas, impregnadas de tinta de impressão. Os cartazes, manchados de sujeira, guarneciam como tapeçaria as curvas do meio-fio. O comércio dos jornais vespertinos era animado e, ainda, em comparação com o tráfego de pés ágeis e de marcha constante, o efeito era de indiferença, de uma distribuição ignorada.""

SERVIÇO:O agente secreto, de Joseph Conrad. Tradução: Eduardo Furtado. Edição bilíngue (português e inglês). 304 páginas, Landmark. R$ 41,50. "

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