A Editora Landmark na Imprensa
"Elias Thomé Saliba

Apesar de já reconhecido como escritor mundialmente famoso, laureado pelo Nobel de literatura em 1907, Rudyard Kipling nunca chegou a ser enquadrado no cânone da literatura inglesa. Nem sua larga experiência como repórter e nem sua brilhante vocação para fábulas e narrativas fantásticas, conseguiram atenuar o peso de sua obsessão civilizadora, expressa na mais famosa das suas imagens poéticas: “O fardo do homem branco.” Foi este Kipling, com aquele jeitão de sahib vindo da India Britânica, mas já um tanto retraído - e triste por ter perdido o filho na Primeira Guerra Mundial - quem visitou o Brasil no ano de 1927, produzindo uma série de reportagens para o Morning Post, agora reeditadas com o título de As Crônicas do Brasil (Landmark, 144 págs., R$ 22,50, edição bilíngüe, tradução de Luciana Salgado). São registros muito rápidos das quase seis semanas que o autor de Kim passou pelo País, mas, ainda assim, pequenos flashes com as marcas reveladoras do seu inconfundível estilo: narrativa cheia de pequenos detalhes, marcada por uma perene nostalgia dos padrões morais vitorianos - suavizada apenas pelos poemas através dos quais ele introduz os assuntos das crônicas.

Quando Kipling chegou ao Rio de Janeiro faltava ainda uma semana para o carnaval, mas ele espantou-se com o clima de festa permanente, com os carros passando repletos de pessoas fantasiadas, alegres e cantantes. Com seu olhar algo obsessivo pela limpeza e asseio, descreve as batalhas de confete e serpentina e, até chega a ensaiar, meio sem jeito, alguns passos daquela dança que, segundo ele, parecia-se com o Charleston. Na visita ao Jardim Botânico, realiza aquilo a que se refere como o “grande sonho de sua infância: conhecer uma vitória-régia em seu próprio habitat”. Já em São Paulo, registra minuciosamente a subida e a descida da serra por via férrea e a recém-inaugurada usina Henry Borden. Seu gosto compulsivo pela natureza também se revela quando dedica uma crônica inteira ao Instituto Butantã, que ele designa, maravilhado, como uma “moderna fazenda de serpentes”. Com relação a São Paulo, fornece ainda um testemunho da sua caótica metropolização urbana, definindo-a como uma cidade “que parecia periodicamente demolida para ser reconstruída sempre mais para o alto.”

O foco das crônicas está na reafirmação das belezas da paisagem brasileira, fortemente ensolarada - “um fascinante e misterioso mundo à parte”, como na Índia, e em contraste profundo com a Inglaterra, que ele descreve como “um gigantesco navio perdido num oceano de neblina”. Tal admiração parecia compensar a indiferença pouco generosa de Kipling em relação ao homem e à sociedade. “No Brasil tudo é grande, exceto o Homem” - a frase é do historiador inglês Thomas Buckle, mas ela ainda parecia impregnar as crônicas de Kipling. Como Buckle, Kipling parecia ainda acreditar que calor e umidade, fertilidade da terra e vasto sistema fluvial foram condições indispensáveis para as grandes civilizações. Segundo esta disparatada tese determinista, o Brasil ainda não desenvolvera tal civilização em virtude de agentes climáticos perturbadores de todas aquelas condições, que criaram uma natureza de tal forma exuberante que inferiorizou o homem.

Como vários outros viajantes estrangeiros, Kipling também anotou a profunda falta de impessoalidade dos brasileiros no trato com os negócios: “Se ele (o brasileiro) gostar de você como pessoa fará tudo o que puder. Se não gostar, fará menos do que nada.” Chega a dizer ainda que “nunca viu uma raça mais ágil para reconhecer suas próprias fraquezas ou para tirar vantagem delas”, exemplificando com o jogo do bicho, a “mais liberal das loterias ilegais” - pois, distribui prêmios proporcionais à quantia jogada, satisfazendo a grande massa dos brasileiros, apostadores compulsivos movidos pela ilusão do ganho fácil. Mas, tirando estas duas observações, as crônicas de Kipling reafirmam a visão do Brasil como um País do futuro, plenamente apto a ingressar no rol das sociedades modernas e, até mesmo, a ultrapassá-las. Mas não há nenhum sombra daquele entusiasmo do jovem Kipling, obcecado pela função civilizadora dos britânicos. E ainda quando embarcava de volta, recebeu a notícia da fundação, em Londres, por iniciativa de seus admiradores, da Kipling Society. Notícia que, por sinal, ele registrou, mas também sem nenhum entusiasmo: “Podiam ao menos esperar que eu morresse primeiro.”

Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor dos livros Raízes do Riso e As Utopias Românticas "

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