A Editora Landmark na Imprensa
"Um sonho lunar

O clássico Da Terra à Lua, no qual Jules Verne antecipava em um século a viagem do homem à Lua, sai em edição bilíngue e com ilustrações originais

Edição bilíngue da obra Da Terra à Lua traz texto e ilustrações originais com tradução que pretende manter o espírito de vanguarda e irônico do escritor francês.

Foi no ano de 1968 que o gênio empreendedor do homem conseguiu transformar em realidade o antigo sonho de enviar uma missão tripulada à Lua. Naquela ocasião, a Apolo 8, que tinha a bordo os americanos Frank Borman, James Lovell e William Anders, não viajou com o objetivo de pousar no solo lunar, mas de orbitar em torno dela e preparar o terreno para a grande conquista da Apolo 11.

Praticamente um século antes, no ano de 1865, outro tipo de gênio – o gênio visionário do escritor francês Jules Verne (1828–1905) – já projetava, no terreno da ficção, uma viagem do homem à Lua, com requintes de imaginação, rigor científico e, o que é mais intrigante, um admirável senso de antecipação. Esta viagem pioneira é o tema do livro Da Terra à Lua, que a editora Landmark lançou em edição bilíngüe (português-francês) e com as ilustrações originais de Henri Montaut (1830-1900). E, embora a tecnologia empregada pelo herói Barbicane e seus amigos nesta aventura extraordinária estivesse longe dos foguetes lançados pelos russos e americanos na corrida espacial do século20,há coincidências ali que nos fazem imaginar que Verne olhava diretamente para uma bola de cristal quando escrevia.

A começar pela escolha do país-sede: os Estados Unidos da América. “Em Da Terra à Lua Verne apresenta alguns fatos que acreditava que levariam os EUA a conseguir este intento: a política bélica e o espírito empreendedor, além do desenvolvimento tecnológico norte-americano, bem como características geográficas e astronômicas”, percebe o diretor editorial da Landmark e autor do posfácio desta edição, Fabio Pedro-Cyrino, em entrevista ao 2+.

Disputa

Verne vai mais longe e prospecta até os estados aptos a sediar o disparo do projétil – sim, a tecnologia utilizada neste voo para a Lua é a de um gigantesco canhão –, promovendo uma acirrada disputa fictícia entre o Texas e a Flórida. Por coincidência – ou não, já que o escritor usou de toda uma investigação geográfica e astronômica para chegar a eles –, seria a Flórida a sediar os principais lançamentos do programa espacial americano no século seguinte.

Estabelecer outras coincidências seria entrar em minúcias. Basta, para resumir, citar que a missão seria tripulada por três homens. O que maravilha o leitor, além da capacidade visionária de Verne, é seu extraordinário conhecimento de física, geografia, mecânica e astronomia, capaz de enriquecer a história com cálculos minuciosos e detalhes dignos de um cientista ou engenheiro–sem falar na fina ironia e no humor sutil com os quais pontua a narrativa.

“Ele também apresenta um lado de crítica social e comportamental sobre os exageros de sua época: os norte-americanos, como Barbicane e Nicholl, refletem o espírito empreendedor e belicista dos EUA”, observa Pedro-Cyrino. Guardadas as diferenças de estilo literário, pode-se comparar, por exemplo, o conhecimento científico de Verne com a erudição de escritores como o italiano Umberto Eco. Em ambos os casos há, muitas vezes, uma tal prolixidade de detalhes técnicos e acuidade intelectual capaz de exasperar o leitor, quando não se trata de puro exibicionismo.

Para o escritor de ficção científica paulista Roberto Causo este preciosismo, no caso de Verne, se dá porque o ensino científico não era muito presente em seu tempo, quando não haviam os meios de divulgação (revistas, livros, programas de TV, internet) de que dispomos hoje. “A coleção Voyages Extraordinaires de Verne [da qual Da Terra à Lua faz parte] era justamente um projeto de divulgação”, diz ele em entrevista por e-mail.

“Aparentemente, pela aceitação ampla e pela influência de Verne mundo afora, esse aspecto deve ter sido mais um atrativo do que um empecilho”, prossegue. Causo categoriza Verne como um precursor da FC hard, “um ramo muito prestigioso que enfatiza as ciências exatas e a tecnologia”. Ele lembra, no entanto, que hoje este estilo já não sofre do mesmo peso didático.

Para Pedro-Cyrino, no posfácio desta edição, o autor francês estaria melhor classificado como escritor de “romance de turismo imaginário”. Roberto Causo, no entanto, considera incontestável que Jules Verne tenha sido um pioneiro da ficção científica. “É bom lembrar que a ‘aventura’ era então uma expressão guarda-chuva para um número de gêneros que hoje têm um contorno mais claro para o leitor moderno, entre eles a fantasia, a ficção militar–e a ficção científica. Verne não escreveu apenas ficção científica, mas a FC que ele escreveu teve enorme impacto”.

Viagem à Lua de Verne nasceu do êxito da indústria bélica dos EUA

Depois da Guerra de Secessão nos Estados Unidos, os dirigentes do Clube do Canhão, na cidade de Baltimore, que haviam desenvolvido uma alta tecnologia no campo da balística, não sabiam mais o que fazer com seu gênio inventivo, já que não havia mais conflitos.

Foi então que, para sacudir o marasmo, Impey Barbicane, o presidente, teve a ideia de desenvolver um grande canhão como objetivo de enviar um projétil para a Lua. Esta é, em resumo, a história que Jules Verne conta no clássico Da Terra à Lua.

Acolhido com entusiasmo em todo o mundo na obra, o projeto da viagem lunar ficou ainda mais emocionante quando um aventureiro francês, Michel Ardan, se apresentou como voluntário para tripular o projétil. Mais tarde, a proposta ganharia a adesão do próprio Barbicane e de seu ex-rival, o capitão Nicholl.

O projétil de canhão tripulado, disparado de Tampa, Flórida, não chega à superfície lunar, fica orbitando nosso satélite. O destino da tripulação é um mistério. Mas Jules Verne não deixa seus leitores na mão. Cinco anos depois ele publicaria a sequência da história no livro Ao Redor da Lua, que a Landmark publica em mais uma edição bilíngue ilustrada no próximo mês de julho, traduzida, assim como Da Terra à Lua, por Vera Sílvia Camargo Guarnieri.

“Nosso objetivo é propiciar às novas gerações o acesso ao texto original, às ilustrações originais com uma tradução que pretende manter o espírito informativo, de vanguarda e irônico de Verne”, diz o editor da Landmark, Fabio Pedro-Cyrino.

Futurismo em questão

Ainda que antecipasse a viagem à Lua em um século na ficção, Jules Verne não foi ao futuro para situar esta possível façanha do espirito humano. Antes, situou-se a em seu próprio tempo e com os recursos tecnológicos então disponíveis. Esta, aliás, é uma característica que induz muitos especialistas em FC a não considerá-lo exatamente como um escritor do gênero, já que para eles a ficção científica está ligada a uma estética futurista.

“Verne pouco se preocupou em criar uma visão utópica ou distópica, ou mesmo um enredo ambientado em épocas futuras”, percebe Pedro-Cyrino. “Na verdade, muitos dos seus romances lidam com conquistas ainda não realizadas em um mundo real, mas que eram realizações que o próprio Verne acreditava serem perfeitamente possíveis em um contexto do seu tempo”.

O escritor Roberto Causo discorda da vinculação da FC ao futurismo.“Embora Verne tenha escrito pouco sobre o futuro (como fez com Paris no Século XX), ele trouxe para o gênero temas e procedimentos de observação, extrapolação e coerência que influenciaram um grande segmento da FC do século 20”.

E qual teria sido a influência de Verne sobre as próprias invenções da ciência? “Em muitos casos, Verne não previu exatamente invenções como o submarino, o balão dirigível, a cápsula espacial ou a fábrica flutuante do Projeto Jari”, diz Causo. ""Eles foram inspiradores não por serem antecipações perfeitas, mas por que encantaram. Como no caso de Santos Dumont, que foi à França esperando encontrar as maravilhas descritas por Verne, e ao não encontrá-las, buscou criá-las ele mesmo”

Por Eduardo Bastos "

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