A Editora Landmark na Imprensa
"por Alessandro Atanes

O texto de hoje registra a publicação de mais um documento literário que cita o Porto de Santos. São ""As Crônicas do Brasil"", do escritor britânico de ascendência indiana Rudyard Kipling (1865-1936), autor de romances de aventura como ""Mowgli, o Menino-Lobo"" (O Livro da Selva) e considerado o ""poeta do império"" de Vossa Majestade. Devo a indicação da leitura ao escritor santista Flávio Viegas Amoreira.

A contracapa desta edição de 2006 informa que esta é a primeira tradução para o público brasileiro destes textos publicados originalmente no jornal Morning Post entre 29 de novembro e 20 de dezembro de 1927 e reunidas em livro após a morte de seu autor.

""Sofrendo de graves problemas de saúde"" (expressão da contracapa), Kipling inicia em 1925 uma longa viagem de navio que renderia também os textos de Notas Americanas, outro relato de viagem. Em 1927, cruza a Linha do Equador e chega ao Brasil no meio do verão, em fevereiro, a uma semana do Carnaval.

Em primeiro lugar, um esclarecimento: embora estejamos acostumados a chamar de literatura o corpo de obras ficcionais e poéticas, o termo literário não se limita ao ficcional ou lírico; as obras de história também são literatura, como são também a ""literatura médica"" ou ""literatura técnica"" (já o valor literário é que são elas). ""As crônicas do Brasil"", por sua vez, não são ficção, mas relatos de viagem produzidos para jornal. Ainda assim merecem o termo ""documento literário"", tanto pelo ofício do autor e o estilo pessoal dos textos como pelo próprio valor literário (em 1927, as regras jornalísticas eram outras, mas creio que até nos dias de hoje um relato de viagem redigido por um escritor não deveria seguí-las).

Mas os limites se misturam na própria obra de Kipling. À frente das crônicas, um poema ilustra o tema de cada uma das sete delas. Os próprios títulos são bem mais literários que jornalísticos, como atestam os exemplos A Montanha que Guarda os Jardins do Rio, sobre a então capital federal, ou O Deus dos Relâmpagos: Como a Energia chegou a São Paulo, com a chegada em Santos e a descrição da Usina Henry Borden em Cubatão, e ainda O Romance da Construção da Estrada de Ferro: Uma Escalada de Seiscentos Metros, que descreve a descida da Serra do Mar desde São Paulo até Santos. O início do relato também colabora para o efeito literário do relato:

Certa vez, em um sonho infantil, perambulei até o fim do mundo e encontrei coisas muito distintas de tudo o que aprendera; como apenas as crianças e os povos antigos querem que sejam. Agora o sonho se tornou realidade.

Mas vamos à viagem de Kipling: tudo começa no cais de Southampton, Inglaterra, onde o autor embarca em um navio sul-americano no qual as perguntas dos passageiros são respondidas em português ou espanhol, línguas também dos letreiros da embarcação. Estamos na primeira crônica, A Busca da Beleza: Viagem ao Exterior. Nas escalas de Lisboa, Portugal, e Vigo, porto da Galícia, na Espanha, o barco se enche de imigrantes que ""espalhavam-se no castelo de proa e viviam ao ar livre"" e, cada vez mais, o português e o espanhol tornavam-se a ""língua franca"" da viagem. Após breves descrições sobre os passageiros, Kipling relata a chegada à primeira escala brasileira:

Então, logo cedo em uma manhã, nosso navio parou e, por conseguinte todas as pequenas aragens e brisas que corriam acima e abaixo dele também cessaram; e o calor - o calor genuíno das terras que não têm ""mau tempo"" - golpeou gentilmente às costas. Era Pernambuco abrindo outro dia precioso, com barcos atracados bordo-a-bordo, onde homens vendiam mangas rosas e douradas, periquitos verdes, cada mancha e clarão de cores definidas como um trabalho esmaltado; tudo sustentado pelo concreto dos novos ancoradouros, tanques de óleos e armazéns.

O autor começa a crônica seguinte - A Montanha que Guarda os Jardins do Rio - comentando o intervalo de tempo entre a chegada à enseada e a atracação do navio:

Em países sensatos não há afobação, nem mesmo para ir a hospitais ou delegacias. Assim, ainda que tivéssemos entrado na enseada do Rio no início da tarde, não foi antes do começo do anoitecer que ladeamos o embarcadouro, e toda a cidade e as enseadas ao seu redor reservaram aquele momento para acenderem-se em constelações de estrelas opacas de eletricidade sem controle.

Escoltado pelo Rio de Janeiro (sem qualquer menção à atualidade), Kipling sobe o morro de Santa Teresa, trafega pelas ruas da cidade, nota que os motoristas conduziam a uma velocidade ""mais que suficiente"", passa por Copacabana e, no dia seguinte, vai até o Jardim Botânico para encontrar uma vitória-régia em seu habitat.

Em O Deus dos Relâmpagos... o autor começa o texto aconselhando seus conterrâneos a viajar do Rio para São Paulo por mar, bastando dirigir-se à avenida principal e acenar para um navio a vapor, ""pois lá estes são tão abundantes quanto os ônibus"", comparação que, com a devida atenção ao exagero, pode oferecer uma pista do fluxo interno migratório que se avolumava naquele período. Mas para chegar a São Paulo vindo do mar, é preciso aportar em Santos:

Alcançamos Santos, o porto de São Paulo, sob o olhar atrevido do céu da África Ocidental; um rio de estilo holandês vagueava e se contorcia em planícies muito verdes; desaguou no cais em que todos os vapores do mundo descarregavam mercadorias luxuosas, maquinários e trajes, ou embarcavam sacas de café que deslizavam por centenas de metros de esteiras rolantes, e decantavam a si mesmas, como porcos Garadene acéfalos, em compartimentos próprios. Pilhas de bananas desciam rio abaixo em barcaças e uniam-se ao esverdeado convés de carga dos navios cor de creme, com chaminés rubro-negras.

Como é comum na literatura que descreve o movimento do cais santista, o autor não tem como escapar da descrição do movimento de cargas (""todos os vapores do mundo""), tanto a importação de objetos de luxo quando a exportação do café, nossa principal matéria-prima naquele momento que antecedia o crash de 1929.

A menção aos porcos, explica uma nota de edição, refere-se à passagem bíblica em que Jesus Cristo livra um homem dos demônios de Garadene e os direciona a uma manada de porcos, e os animais correm para um penhasco e de lá se arremessam em um rio no qual se afogam. Na prosa de Kipling, a imagem revela a mecanização do trabalho de embarque.

Além do porto, o autor descreve aos seus leitores do Morning Post as ações contra a febre amarela tomadas nos anos anteriores e como a doença afetava as tripulações:

Mais tarde, eles drenaram os pântanos, lutaram contra a febre, substituíram as mulas por vagonetes, e agora tudo está muito limpo. Mas a antiga cidade selvagem, com casas de cores vivas e a impressionante descida do café, ainda parece contar, a meia voz, sobre senzalas e enfermidades.

A descrição da cidade termina com uma comparação entre Santos e Brighton. A antiga vila de pescadores do litoral inglês, explica outra nota da edição, torna-se em meados do século XVIII um balneário para banhos de mar, sugestão de alguns médicos para a cura de determinadas enfermidades. O rei George III seguia esse tipo de prescrição médica e seu filho, George IV, chega a construir um Pavilhão Real na cidade, o que acaba atraindo para Brighton as classes mais ""abastadas"" da sociedade britânica, que acabam adotando o balneário para suas férias. Logo depois, com a chegada dos trilhos, o lugar se transformaria em popular ponto turístico, daí o paralelo com Santos:

O lugar é agora utilizado como uma espécie de Brighton, as pessoas descem de São Paulo, a cinqüenta quilômetros de distância, para passarem o dia, e atiram-se ao redor das praias de areia dura em carros envernizados.

Mais Rudyard Kipling na próxima semana.

Referência: Rudyard Kipling. ""As Crônicas do Brasil"". Edição Bilíngüe. Tradução de Luciana Salgado. São Paulo: Editora Landmark, 2006."

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