A Editora Landmark na Imprensa
"de Alessandro Atanes

A partir de uma viagem realizada por cidades brasileiras em 1927, o escritor britânico de origem indiana Rudyard Kipling (1865-1936) escreveu ""As Crônicas do Brasil"", publicadas inicialmente em sete artigos no jornal Morning Post e reunidas em livro após a morte do autor. Kipling é o autor de clássicos da literatura moderna como ""Mowgli, o Menino-Lobo"" (O Livro da Selva) e o poema If (Se) e venceu o prêmio Nobel de literatura em 1907. Para se recuperar de problemas de saúde, Kipling realizou entre 1925 e 1927 uma longa viagem de navio que resultou em suas sete crônicas sobre o Brasil e outros textos. Duas delas se referem à Cubatão.

Em ""O Deus dos relâmpagos: Como a Energia chegou a São Paulo"", o autor descreve um dia dos funcionários da Usina Henry Borden, que havia sido inaugurada há pouco tempo, em 1926. Historicamente um ponto entre o porto de Santos e o planalto, Cubatão geralmente é descrita nos relatos de viajantes, principalmente no período colonial, como um local de passagem. No texto de Kipling, apesar de ele também estar de passagem – iria até São Paulo –, lemos a descrição de um ambiente de trabalho e de residência, com seus locais de moradia e refeições:

Bangalôs de azulejo e concreto subiam de todos os lados – prova de que aquele deveria ser algum tipo de quartel-general permanente: havia também madeira e construções de zinco – uma delas um inconfundível e agradável local para refeições – que sugeria o Canadá, mas não havia explicação para os guindastes que se inclinavam sobre um riacho espantoso, que obviamente carregava muito mais água do que poderia.

O chefe de Divisão da Biblioteca e Arquivo Público de Cubatão, Wellington Ribeiro Borges, destaca o valor da descrição para a recomposição deste momento da história da cidade: ""Vemos na crônica como era o funcionamento da usina e de como funcionavam as máquinas que geravam energia"". O autor fala sobre a Casa de Força que recebia as águas desde uma altura de 600 metros em colunas de 17 centímetros, o equivalente para gerar até 88 mil volts, índice suficiente para o autor comparar o mecanismo ao deus indiano dos relâmpagos, Abu Bijl’’:

A engenhoca toda – chamam-na Roda de Pelton – é assim movida com rapidez. Duas rodas como essas dão vida ao Demônio Encapuzado - Abu Bijl’’ – o Deus dos Relâmpagos – e deve-se aproximar com a cabeça descoberta, ou a mera passagem de seu sopro arrancará o chapéu de sua cabeça. Ele é conhecido pelos servos como Dínamo (com muitos milhares de cavalos-de-força), e serve aos mais variados propostos do mundo.

Wellington Ribeiro Borges destaca também o que o próprio título da crônica indica: a usina havia sido construída não para fornecer energia elétrica para Cubatão e a Baixada Santista, mas para atender ao município de São Paulo, que passava por um surto de crescimento industrial. A usina Henry Borden era ""apenas mais um dos diversos lugares posicionados ao redor de São Paulo e que vendem mais energia para os seus quatro cantos"". Conhecido como ""o poeta do império"" britânico, Kipling costuma comparar as paisagens de Cubatão com locais mais familiares aos seus leitores britânicos: o clima de Cubatão é semelhante ao de Madras, cidade da Índia; o ""agradável"" local para refeições se parece com o Canadá; e o vagão de trem no qual desce a serra após a viagem até uma fazenda de café no interior de São Paulo ""poderia ter sido indiano, sul africano ou canadense"", sem contar que a própria usina e a estrada de ferro foram construídas por engenheiros britânicos.

A descida de Serra do Mar

Em ""O Romance da Construção da Estrada de Ferro: Uma Escalada de Seiscentos Metros"", Kipling descreve a descida da Serra do Mar a partir do vagão de passageiros da São Paulo Railway, a ferrovia que mais tarde seria chamada de Santos-Jundiaí. Sobre esse trecho da viagem, ele destaca a dificuldade do terreno: ""Deve haver no mundo uma região pior que esta para estradas de ferro; mas nunca vi nenhuma. Cada metro dessas traiçoeiras escarpas conspira contra o homem, dos declives quase verticais ocultos acima, até os desfiladeiros completamente verticais abaixo. É impossível não reverenciar a perícia demoníaca com que a água sempre ataca os pontos fracos dos suportes dos cavaletes, a boca dos túneis e as curvas. Todos os cumes e ribanceiras foram protegidos com placas de aço, revestidos de pedras, concretados e, onde foi possível, desviados; o sistema de calhas era amplo como as cisternas urbanas, bem como os aquedutos. (...) E havia pontes de cavaletes de aço que o lançavam por entre os precipícios, onde você poderia despencar por trinta metros para dentro de uma floresta de quinze metros antes de seu vagonete começar a andar de verdade. Para estudar-se o assunto de forma apropriada, a região toda deveria ser percorrida a pé, com guias e bastos de alpinista, em vez de uma cadeira confortável"".

De volta a Santos, Kipling toma um navio para o Rio de Janeiro e dali retorna à Inglaterra. O livro ""As Crônicas do Brasil"" foi editado em 2006 pela editora Landmark."

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