{"id":1022,"date":"2022-02-14T10:56:32","date_gmt":"2022-02-14T13:56:32","guid":{"rendered":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/?p=1022"},"modified":"2022-02-14T10:56:32","modified_gmt":"2022-02-14T13:56:32","slug":"30-05-2010-o-agente-secreto-no-jornal-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/2022\/02\/14\/30-05-2010-o-agente-secreto-no-jornal-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"30\/05\/2010 &#8211; O AGENTE SECRETO NO JORNAL DI\u00c1RIO DO NORDESTE"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Tendo como motivo aparente a montagem de um quebra-cabe\u00e7a que entrela\u00e7a espionagem e narrativa policial, Joseph Conrad mergulha na condi\u00e7\u00e3o humana, apontando as fronteiras que se estendem entre a ess\u00eancia e a apar\u00eancia, bem como os verdadeiros motivos por que se rege a engrenagem social<\/p>\n<p>A partir de um ponto de vista em terceira pessoa, conduzido por um narrador onisciente e tamb\u00e9m com marcas de intrus\u00e3o, esse romance apresenta como espa\u00e7o e tempo a cidade de Londres no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XIX &#8211; um ponto convergente para os exilados pol\u00edcos daquele per\u00edodo. Assim, o leitor entra, de chofre, em contato com a personagem Verloc &#8211; anarquista no ex\u00edlio, que serve a interesses estrangeiros bem como faz tamb\u00e9m as vezes de informante para a pol\u00edcia londrina. Conhece a pequena loja que lhe serve de disfarce e os membros da fam\u00edlia, cuja descri\u00e7\u00e3o funde tra\u00e7os f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos, com laivos de humor e de ironia, bem ao gosto dos ficcionistas que dialogam com as t\u00e9cnicas realistas na composi\u00e7\u00e3o de tipos ou de espa\u00e7os.<\/p>\n<p>Levando-se em conta os tra\u00e7os de estilos, a composi\u00e7\u00e3o desse romance alcan\u00e7a um ponto alto no momento em que une \u00e0 narra\u00e7\u00e3o os fios descritivos, delineando, assim, o corpo vivo do cotidiano da cidade: &#8220;&#8221;As polidas aldravas das portas reluziam at\u00e9 onde os olhos podiam ver, as janelas limpas brilhavam com um fulgor escuro e opaco. E tudo estava sossegado. Mas um carrinho de leite chacoalhava ruidosamente pelo distante horizonte; um entregador de carnes, guiando com a nobre imprud\u00eancia de um cocheiro nos Jogos Ol\u00edmpicos, se lan\u00e7ou sobre a esquina, sentado bem acima de um par de rodas vermelhas&#8221;&#8221;. E n\u00e3o falta um olhar culpado de um gato que emerge do cal\u00e7amento.<\/p>\n<p>A trama come\u00e7a a ganhar f\u00f4lego, em rela\u00e7\u00e3o ao tecido dram\u00e1tico, quando Verloc \u00e9 chamado \u00e0 presen\u00e7a do novo embaixador. O senhor Vladimir, Primeiro Secret\u00e1rio, tinha ares de um homem tranquilo e cordial. Por conta desses tra\u00e7os, podia desenvolver com plenitude uma de suas habilidades: a investiga\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es alheias, como olhamos profundamente aquele que n\u00e3o nos v\u00ea. Verloc, em frente ao Primeiro Secret\u00e1rio, ouvia-lhe as observa\u00e7\u00f5es, num sil\u00eancio terr\u00edvel, imobilizante. E, ante a surpresa do discurso, ficou demasiadamente chocado, sem for\u00e7as sequer para qualquer protesto, por mais t\u00eanue que este pudesse ser.<\/p>\n<p>Vladimir pronunciava calmamente o seu desejo: &#8220;&#8221;Uma s\u00e9rie de atentados&#8221;&#8221;. N\u00e3o era necess\u00e1rio que fossem atentados sangrentos, mas deveriam ser suficientemente assustadores. E de modo incisivo, judicioso: &#8220;&#8221;Eficazes. Que sejam dirigidos contra edif\u00edcios, por exemplo. Qual \u00e9 o fetiche do momento, que toda a burguesia reconheceria, hein, Senhor Verloc?&#8221;&#8221;. Ressaltou, depois, que nada contra a realeza ou a religi\u00e3o &#8211; portanto, o pal\u00e1cio e as igrejas deveriam ser deixados de lado. Onde ent\u00e3o deveria ele agir? Exatamente, nos pr\u00e9dios das embaixadas, uma vez que, nesse caso, a repercuss\u00e3o estaria absolutamente garantida.<\/p>\n<p>Agora, agentes secretos, policiais, diplomatas, pessoas an\u00f4nimas ou figuras da pol\u00edtica, toda essa gente ir\u00e1 percorrer o caleidosc\u00f3pio da sociedade londrina &#8211; esta, com seus gestos calculados, premeditadamente polidos, falsifica a identidade, e, com isso, o que \u00e9 mentira parece verdade, e o que \u00e9 verdade atrai sobre si imensa desconfian\u00e7a. Joseph Conrad \u00e0 semelhan\u00e7a do ourives com o seu cinzel raspa a crosta das rela\u00e7\u00f5es humanas, despindo o corpo das pr\u00e1ticas terroristas por um lado, por outro mostra a corros\u00e3o da sociedade moderna que transformava rapidamente.<\/p>\n<p>Essa edi\u00e7\u00e3o de &#8220;&#8221;O Agente Secreto&#8221;&#8221; \u00e9 bil\u00edngue; desse modo, permite ao leitor comprovar a propriedade da tradu\u00e7\u00e3o; esta converva os movimentos do texto origial, a cad\u00eancia de suas frases, o ritmo da narrativa, em que o prosaico \u00e9, constantemente, tocado pelo po\u00e9tico: &#8220;&#8221;&#8230; e terr\u00edvel, na simplicidade de sua ideia, que convocava a loucura e o desespero para regenerar o mundo. Ningu\u00e9m olhava para ele. E ele prosseguiu, inesperada e fatalmente, seguindo como uma peste em uma rua cheia de homens&#8221;&#8221;. Encerra-se assim uma narrativa que supera a simples estrutura de um thriller e se converte numa singular constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>CARLOS AUGUSTO VIANA: EDITOR &#8221;<\/p>\n<p>JORNAL DI\u00c1RIO DO NORDESTE<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Tendo como motivo aparente a montagem de um quebra-cabe\u00e7a que entrela\u00e7a espionagem e narrativa policial, Joseph Conrad mergulha na condi\u00e7\u00e3o humana, apontando as fronteiras que se estendem entre a ess\u00eancia e a apar\u00eancia, bem como os verdadeiros motivos por que se rege a engrenagem social A partir de um ponto de vista em terceira pessoa,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"class_list":{"0":"post-1022","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"hentry","6":"category-51","8":"description-off"},"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1022"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1022\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1023,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1022\/revisions\/1023"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}