{"id":598,"date":"2022-02-11T08:02:25","date_gmt":"2022-02-11T11:02:25","guid":{"rendered":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/?p=598"},"modified":"2022-02-11T08:02:25","modified_gmt":"2022-02-11T11:02:25","slug":"20-12-2007-o-ultimo-homem-no-correio-da-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/2022\/02\/11\/20-12-2007-o-ultimo-homem-no-correio-da-bahia\/","title":{"rendered":"20\/12\/2007 &#8211; O \u00daLTIMO HOMEM NO CORREIO DA BAHIA"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Autora de \u2018Frankenstein\u2019, Mary Shelley constr\u00f3i um futuro p\u00f3s-apocal\u00edptico em \u2018O \u00faltimo homem\u2019 Por Doris Miranda Provavelmente, Mary Shelley (1797-1851) n\u00e3o tinha muita no\u00e7\u00e3o, mas estava criando o que se chama hoje de fic\u00e7\u00e3o p\u00f3s-apocal\u00edptica quando concebeu seu segundo livro, O \u00faltimo homem, publicado na Inglaterra em 1826, na \u00e9poca dividido em tr\u00eas volumes. Exatamente o mesmo t\u00edtulo, in\u00e9dito no Brasil, que chega \u00e0s livrarias pela editora Landmark, numa edi\u00e7\u00e3o bil\u00edng\u00fce (ingl\u00eas\/portugu\u00eas), considerado o romance precursor do g\u00eanero que retrata o fim da civiliza\u00e7\u00e3o por meio de alguma cat\u00e1strofe. Nesse caso, uma praga que extermina toda a popula\u00e7\u00e3o do planeta, deixando somente um sobrevivente para contar a hist\u00f3ria. Muito mais conhecida como autora do cl\u00e1ssico Frankenstein, uma das mais tristes narrativas de terror\/fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (ela tamb\u00e9m foi pioneira nisso), Shelley teve seu O \u00faltimo homem ofuscado pela saga da criatura vivificada pelo obsessivo doutor Victor Frankenstein. Trabalho dos editores ou prefer\u00eancia do p\u00fablico \u2013 sabe-se l\u00e1 o motivo. <\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que O \u00faltimo homem, cuja narrativa tamb\u00e9m acontece em primeira pessoa, como no outro livro mais famoso, \u00e9 sensacional. Ambientada no s\u00e9culo XXI, a hist\u00f3ria \u00e9 contada como as mem\u00f3rias de Lionel Verney, o \u00fanico sobrevivente da Terra, desde o seu nascimento at\u00e9 os \u00faltimos momentos da humanidade, destru\u00edda por uma devastadora doen\u00e7a. Naturalmente imune ao mal, ele testemunha a morte gradual de todas as pessoas \u00e0 sua volta. O leitor vai percebendo isso aos poucos, depois que Shelley apresentou todos os fatos que achou relevante para prender a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. At\u00e9 o cl\u00edmax da hist\u00f3ria, quando a popula\u00e7\u00e3o come\u00e7a a morrer e Verney vivencia dias de verdadeiro terror, a autora percorre um longo caminho, entremeado por tramas paralelas envolventes, disputas de poder pol\u00edtico, amores ardentes e at\u00e9 uma guerra. O que se ganha com isso? Um mergulho profundo nos meandros da alma de personagens ricos, como os fict\u00edcios Conde Adrian e Lorde Raymond, baseados, respectivamente, em seu marido, Percy Shelley, e o amigo Lorde Byron, ambos poetas famosos. H\u00e1 tamb\u00e9m a personagem Clara, filha de Lionel Verney, batizada com o mesmo nome da primeira filha de Mary com Percy, que morreu pouco depois de nascer prematura e doente. Mas a id\u00e9ia central do romance \u00e9 a solid\u00e3o. O \u00faltimo homem n\u00e3o \u00e9 apenas uma trama de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica baseada num argumento at\u00e9 bastante palp\u00e1vel numa \u00e9poca em que a medicina ainda n\u00e3o tinha recursos para conter v\u00edrus e bact\u00e9rias aterrorizantes. <\/p>\n<p>O livro, que influenciou H.G. Wells, Isaac Asimov e Arthur C. Clark, pode ser compreendido como met\u00e1fora para o pr\u00f3prio estado de esp\u00edrito da autora, exaurida ap\u00f3s suas pr\u00f3prias perdas pessoais. Al\u00e9m da filha, morta em 1816, Mary Shelley perdeu o marido em 1822 e o amigo Byron, dois anos mais tarde. Todos antes do livro ser publicado, que saiu nove anos ap\u00f3s Frankenstein. O \u00faltimo homem \u00e9 um conto de fadas para adultos, sem a nuvem cor-de-rosa que envolve os livros do g\u00eanero ou o peso filos\u00f3fico que o tema lhe exigiria. Mary Shelley acerta na medida, criando um livro que reflete os anseios de sua \u00e9poca. A vis\u00e3o de futuro descrita por ela surge a partir de manuscritos prof\u00e9ticos, supostamente encontrados pelo protagonista em uma caverna em N\u00e1poles, na It\u00e1lia, e nos quais \u00e9 apresentado o fim da humanidade. Esses escritos seriam as folhas da Sibila de Cumas, personagem da mitologia grega que anotava o que o deus Apolo lhe sussurrava sobre os fatos do porvir. Curioso \u00e9 que a descri\u00e7\u00e3o desse futuro distante \u00e9 marcada pelo investimento no balonismo como representa\u00e7\u00e3o do progresso cient\u00edfico, apresentado como principal meio de transporte do s\u00e9culo XXI. Afora isso, nada de invencionices ou tecnologias absurdas. Feminismo &#8211; Al\u00e9m de romancista, Mary Wollstonecraft Shelley foi tamb\u00e9m editora e bi\u00f3grafa. Tornou-se conhecida pela obra Frankenstein, o Prometeus moderno, de 1818, publicado quando ela tinha 21 anos, embora tenha come\u00e7ado a escrev\u00ea-lo aos 19. Uma das primeiras feministas de Londres, Shelley escreveu A reivindica\u00e7\u00e3o dos direitos da mulher e Os erros da mulher. A luta social vinha de dentro de casa: seu pai, um te\u00f3rico anarquista, era o escritor e jornalista pol\u00edtico William Godwin, que se tornou famoso pela obra Uma investiga\u00e7\u00e3o concernente \u00e0 justi\u00e7a pol\u00edtica (1793). Durante a inf\u00e2ncia, Mary foi educada entre os intelectuais que participavam de c\u00edrculo de amizades da fam\u00edlia, como o cr\u00edtico Hazlitt, o ensa\u00edsta Lamb, os poetas Coleridge e Percy Bysshe Shelley, com quem viria a casar mais tarde. Mary publicou seu primeiro poema aos 10 anos. Aos 16, fugiu para a Fran\u00e7a e Su\u00ed\u00e7a com Shelley. Casaram-se em 1816, ap\u00f3s o suic\u00eddio da primeira mulher dele. Tiveram uma filha, que faleceu pouco depois em Veneza. Depois, voltaram \u00e0 Inglaterra, onde nasceu o filho, William, morto aos 3 anos. De todos os filhos do casal, somente um sobreviveu. <\/p>\n<p> A sombra do monstro A hist\u00f3ria de Frankenstein come\u00e7ou no Ver\u00e3o de 1816, quando Mary e Shelley reuniram-se com Claire Clairmont e Lord Byron em Genebra (Su\u00ed\u00e7a). Ela aceitou o desafio, proposto por Byron, para escrever a mais terr\u00edvel hist\u00f3ria de fantasmas. Com o encorajamento do marido, completou o romance em um ano. Durante o per\u00edodo em que permaneceu em Villa Diodati, ela foi uma ouvinte silenciosa dos debates entre o marido e Byron sobre o galvanismo, conjunto de fen\u00f4menos relacionados com a gera\u00e7\u00e3o de correntes el\u00e9tricas por meios qu\u00edmicos, muito em voga na \u00e9poca. Isso porque, na Universidade Eton, Shelley havia se interessado pelas experi\u00eancias de Luigi Galvani com choques el\u00e9tricos para movimentar os m\u00fasculos de r\u00e3s mortas. \u00c9 poss\u00edvel que seu professor, James Lind, tenha demonstrado a t\u00e9cnica a Shelley, influenciando diretamente na cria\u00e7\u00e3o de Frankenstein. O fato \u00e9 que ela nunca admitiu isso, declarando v\u00e1rias vezes que tirou a hist\u00f3ria de um sonho. Al\u00e9m de O \u00faltimo homem e Frankenstein, Mary Shelley assinou ainda outros 30 t\u00edtulos. Nenhum deles obteve o mesmo sucesso do livro de estr\u00e9ia. *** Frank em vers\u00e3o light Frankenstein n\u00e3o \u00e9 somente um dos maiores cl\u00e1ssicos da literatura de horror, mas tamb\u00e9m eterno em seus questionamentos filos\u00f3ficos sobre a exist\u00eancia, provocando quest\u00f5es essenciais sobre as rela\u00e7\u00f5es de poder entre iguais e diferentes, o poder da humanidade sobre a natureza, o valor da amizade e a ascens\u00e3o e queda do homem comum. Apesar dos temas n\u00e3o serem de digest\u00e3o t\u00e3o f\u00e1cil, a saga da criatura desenvolvida a partir de restos de cad\u00e1veres sempre atingiu leitores de todas as idades. Especialmente os jovens, que t\u00eam agora uma nova vers\u00e3o mais light, adaptada por Leonardo Chianca, com ilustra\u00e7\u00f5es de Guazzelli. Resumido mas sem perder a ess\u00eancia, o livrinho narra as ang\u00fastias do m\u00e9dico Victor Frankenstein, que dedicou o in\u00edcio de sua carreira a testar os limites da mortalidade. Brincou de Deus e construiu um ser horrendo, fadado \u00e0 eterna solid\u00e3o. Em Frankenstein, ou o moderno Prometeu (t\u00edtulo original da obra), escrito h\u00e1 quase 200 anos e ainda considerado o primeiro romance misto de terror e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da hist\u00f3ria da literatura, o que se v\u00ea \u00e9 uma criatura desesperada por companhia e intera\u00e7\u00e3o com a ra\u00e7a humana. Vingativa quando percebe que n\u00e3o ter\u00e1 nem uma coisa nem outra. *** FICHA Livro: O \u00faltimo homem Autora: Mary Shelley Editora: Landmark Pre\u00e7o: R$51 (496 p\u00e1ginas) Livro: Frankenstein Autora: Mary Shelley Adapta\u00e7\u00e3o: Leonardo Chianca Ilustra\u00e7\u00f5es: Guazzelli Editora: Difus\u00e3o Cultural do Livro Pre\u00e7o: R$21 (112 p\u00e1ginas) &#8221;<\/p>\n<p>CORREIO DA BAHIA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Autora de \u2018Frankenstein\u2019, Mary Shelley constr\u00f3i um futuro p\u00f3s-apocal\u00edptico em \u2018O \u00faltimo homem\u2019 Por Doris Miranda Provavelmente, Mary Shelley (1797-1851) n\u00e3o tinha muita no\u00e7\u00e3o, mas estava criando o que se chama hoje de fic\u00e7\u00e3o p\u00f3s-apocal\u00edptica quando concebeu seu segundo livro, O \u00faltimo homem, publicado na Inglaterra em 1826, na \u00e9poca dividido em tr\u00eas volumes. 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