{"id":618,"date":"2022-02-11T08:08:19","date_gmt":"2022-02-11T11:08:19","guid":{"rendered":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/?p=618"},"modified":"2022-02-11T08:08:19","modified_gmt":"2022-02-11T11:08:19","slug":"04-11-2007-o-ultimo-homem-na-folha-de-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/2022\/02\/11\/04-11-2007-o-ultimo-homem-na-folha-de-sao-paulo\/","title":{"rendered":"04\/11\/2007 &#8211; O \u00daLTIMO HOMEM NA FOLHA DE S\u00c3O PAULO"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Sai tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;&#8221;O \u00daltimo Homem&#8221;&#8221;, de Mary Shelley, escritora inglesa que deu in\u00edcio \u00e0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, no s\u00e9culo 19 ROBERTO DE SOUSA CAUSO ESPECIAL PARA A FOLHA Mary Shelley (1797-1851) \u00e9 a conhecida autora de &#8220;&#8221;Frankenstein&#8221;&#8221; (1818), a obra inaugural da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica moderna. &#8220;&#8221;O \u00daltimo Homem&#8221;&#8221;, de 1826, n\u00e3o havia sido publicado no Brasil at\u00e9 esta edi\u00e7\u00e3o bil\u00edng\u00fce. S\u00e3o as duas obras de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de Mary, mulher de Percy Bysshe Shelley, um dos grandes poetas do romantismo ingl\u00eas, parte do que Rubens Scavone chamou de &#8220;&#8221;s\u00e9quito&#8221;&#8221; de outro grande nome da poesia brit\u00e2nica, lorde Byron. Narrado por Lionel Verney, o livro \u00e9 ambientado no final do s\u00e9culo 21. Verney e sua irm\u00e3, Perdita, s\u00e3o agregados de Adrian, herdeiro do trono ingl\u00eas (mas de pendor republicano). Ainda existe um Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, o transporte r\u00e1pido \u00e9 feito por dirig\u00edveis, m\u00e1quinas cuidam das principais necessidades humanas. O desenvolvimento social mais saliente \u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica na Inglaterra. Mas o interesse da autora n\u00e3o est\u00e1 na especula\u00e7\u00e3o social e cient\u00edfica, e sim na narrativa dentro dos c\u00e2nones do romantismo: estilo rico, celebra\u00e7\u00e3o da natureza, exalta\u00e7\u00e3o de sentimentos, viradas do destino, apari\u00e7\u00f5es espectrais, donzelas disfar\u00e7adas de soldados, intrigas amorosas. \u00c9 uma obra mais complexa do que &#8220;&#8221;Frankenstein&#8221;&#8221;. Mais aten\u00e7\u00e3o \u00e9 dada a quest\u00f5es pol\u00edticas, e dados da biografia da autora s\u00e3o costurados \u00e0 narrativa -Adrian \u00e9 modelado em Percy; lorde Raymond corresponde a Byron; Perdita a Clair Clairmont, meia-irm\u00e3 de Mary; e Clara, filha de Verney, tem o nome da primeira filha de Mary com Percy, morta na inf\u00e2ncia. A paisagem \u00e9 aquela freq\u00fcentada por Mary e o s\u00e9quito de Byron, na Inglaterra ou na Europa continental. De fato, &#8220;&#8221;O \u00daltimo Homem&#8221;&#8221; \u00e9 um &#8220;&#8221;roman \u00e0 clef&#8221;&#8221;, com fatos da vida real disfar\u00e7ados como fic\u00e7\u00e3o. Especialmente a primeira metade, que narra como Raymond liderou a libera\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia do jugo turco (Byron participou do conflito) depois de abdicar de sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Inglaterra. A guerra \u00e9 descrita como choque entre o mundo crist\u00e3o e o mu\u00e7ulmano. Praga devastadora Das ru\u00ednas de Istambul surge a praga devastadora. Ela domina a segunda parte do romance, narrada do ponto de vista -central para a Inglaterra, mas n\u00e3o global- das amizades de Verney. A autora explicita o efeito comparativo: &#8220;&#8221;O mesmo sentimento que primeiro me levou a retratar cenas repletas de ternas lembran\u00e7as agora me obriga a me apressar&#8221;&#8221;. A humanidade vibrante desse c\u00edrculo de amizades \u00e9 confrontada com o seu r\u00e1pido desaparecimento. Buscando o sublime e mantendo uma separa\u00e7\u00e3o de estilos, Mary n\u00e3o desce aos detalhes mais grotescos da peste. Seu enfoque \u00e9 devedor do romance de Daniel Defoe &#8220;&#8221;A Journal of the Plague Years&#8221;&#8221; [1722, Di\u00e1rio dos Anos da Peste] e da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica francesa de 1806 &#8220;&#8221;Le Dernier Homme&#8221;&#8221; [O \u00daltimo Homem], de Jean-Baptiste Cousin de Grainville, no qual o \u00faltimo homem se refugia no Brasil. Nessas obras, a id\u00e9ia do fim do mundo sai do terreno teol\u00f3gico, assume a descri\u00e7\u00e3o do impacto social imediato e vai para o terreno da especula\u00e7\u00e3o futurista -dentro de limites anteriores \u00e0 microbiologia e ao darwinismo. A transi\u00e7\u00e3o \u00e9 expressa no livro, quando exilados ingleses liderados por Adrian encontram um velhaco profeta do apocalipse, na Fran\u00e7a. A partir da publica\u00e7\u00e3o de &#8220;&#8221;O Fim do Mundo&#8221;&#8221; (1894), de Camille Flammarion, e do conto &#8220;&#8221;A Estrela&#8221;&#8221; (1894), de H.G. Wells, firmou-se at\u00e9 meados do s\u00e9culo 20 a tomada panor\u00e2mica, distanciada, no emprego da id\u00e9ia do fim do mundo-como-o-conhecemos (quer ele se concretize ou n\u00e3o). Isso ocorre em romances de desastre como &#8220;&#8221;A Nuvem da Morte&#8221;&#8221; (1913), de Arthur Conan Doyle, e &#8220;&#8221;A Nuvem Negra&#8221;&#8221; (1957), de Fred Hoyle. Uma exce\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;&#8221;S\u00f3 a Terra Permanece&#8221;&#8221; (1949), de George R. Stewart, tamb\u00e9m sobre uma praga global. Esse romance inspirou Stephen King a narrar, sem medo nem do grotesco nem do sobrenatural, a progress\u00e3o de uma supergripe planet\u00e1ria, em &#8220;&#8221;A Dan\u00e7a da Morte&#8221;&#8221; (1978). Sensibilidade exaltada A essa visada impessoal que viria a prevalecer, Mary oferece a perspectiva inversa -toda a trag\u00e9dia do fim do mundo passa pela sensibilidade exaltada do narrador, que descreve n\u00e3o apenas a peste, o p\u00e2nico e os dist\u00farbios civis mas a perda de seus familiares e amigos \u00edntimos, idealizados em sua caracteriza\u00e7\u00e3o de pessoas habilitadas ao &#8220;&#8221;bem viver&#8221;&#8221; da sensibilidade art\u00edstica e humana. O romance adquire uma perturbadora harmonia, da qual emerge o seu real sentido tr\u00e1gico, admitindo o excessivo estilo rom\u00e2ntico e os dados da biografia da autora: o &#8220;&#8221;leitmotiv&#8221;&#8221; do &#8220;&#8221;\u00faltimo homem na terra&#8221;&#8221;, tamb\u00e9m firmado nesse livro, parte talvez do sentimento da pr\u00f3pria Mary, que em 1826 j\u00e1 havia perdido Percy (em 1822) e Byron (em 1824), ao antecipar a dissipa\u00e7\u00e3o da &#8220;&#8221;boa sociedade&#8221;&#8221; de que participara. &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; <\/p>\n<p>ROBERTO DE SOUSA CAUSO \u00e9 autor de &#8220;&#8221;Fic\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica &#8211; Fantasia e Horror no Brasil, 1875 a 1950&#8243;&#8221; (ed. UFMG). O \u00daLTIMO HOMEM Autora: Mary Shelley Tradu\u00e7\u00e3o: Marcella Furtado Editora: Landmark (tel. 0\/xx\/11\/ 6011-2566) Quanto: R$ 51,50 (496 p\u00e1gs.) &#8221;<\/p>\n<p>FOLHA DE S\u00c3O PAULO<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Sai tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;&#8221;O \u00daltimo Homem&#8221;&#8221;, de Mary Shelley, escritora inglesa que deu in\u00edcio \u00e0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, no s\u00e9culo 19 ROBERTO DE SOUSA CAUSO ESPECIAL PARA A FOLHA Mary Shelley (1797-1851) \u00e9 a conhecida autora de &#8220;&#8221;Frankenstein&#8221;&#8221; (1818), a obra inaugural da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica moderna. &#8220;&#8221;O \u00daltimo Homem&#8221;&#8221;, de 1826, n\u00e3o havia sido publicado no&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"class_list":{"0":"post-618","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"hentry","6":"category-48","8":"description-off"},"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=618"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/618\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":619,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/618\/revisions\/619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}