{"id":670,"date":"2022-02-11T08:23:31","date_gmt":"2022-02-11T11:23:31","guid":{"rendered":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/?p=670"},"modified":"2022-02-11T08:23:31","modified_gmt":"2022-02-11T11:23:31","slug":"23-04-2007-meditacoes-no-norte-de-joao-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/2022\/02\/11\/23-04-2007-meditacoes-no-norte-de-joao-pessoa\/","title":{"rendered":"23\/04\/2007 &#8211; MEDITA\u00c7\u00d5ES NO NORTE, DE JO\u00c3O PESSOA"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;por William Costa Os jornais noticiam todas as manh\u00e3s centenas ou milhares de mortes no mundo inteiro. A singularidade das ocorr\u00eancias nutre o espet\u00e1culo di\u00e1rio da m\u00eddia e implode momentaneamente a frialdade da alma deste terceiro mil\u00eanio, despertando seus olhos opacos para o drama humano, que n\u00e3o ocorre num planeta distante de uma gal\u00e1xia qualquer, mas ali mesmo, na esquina da rua onde mora o corpo que lhe d\u00e1 guarida. As mortes silenciosas, an\u00f4nimas, resignadas, embora n\u00e3o menos dolorosas, n\u00e3o interessam aos jornais. S\u00e3o exatamente essas mortes n\u00e3o catalogadas &#8211; que tanto podem acontecer no pesadelo dos casebres africanos, como na insanidade dos hospitais p\u00fablicos brasileiros -, que me comovem e me fazem lembrar, sempre, o poeta John Donne. J\u00e1 perdi a conta, inclusive, dos textos que escrevi citando os versos do metaf\u00edsico ingl\u00eas. Alguns versos de &#8220;&#8221;Medita\u00e7\u00e3o XVII&#8221;&#8221;, de Donne, os mesmos que inspiraram o escritor estadunidense Ernest Hemingway a escrever um de seus mais famosos romances, &#8220;&#8221;Por Quem os Sinos Dobram&#8221;&#8221; (relato pungente sobre a Guerra Civil Espanhola), s\u00e3o os meus preferidos. Recordarei mais uma vez os seus argumentos po\u00e9ticos, indel\u00e9veis palavras escritas sob o fogo do amor ao pr\u00f3ximo: Nenhum homem \u00e9 uma ilha, completa em si mesma, todo homem \u00e9 um peda\u00e7o do continente, uma parte da terra firme. Se um torr\u00e3o de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promont\u00f3rio, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu pr\u00f3prio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. H\u00e1, no entanto, outro motivo especial para trazer Donne \u00e0 tona. A Editora Landmark lan\u00e7ou agora em abril a primeira edi\u00e7\u00e3o brasileira bil\u00ecng\u00fce das 23 medita\u00e7\u00f5es do poeta ingl\u00eas, traduzidas por F\u00e1bio Cyrino. Na opini\u00e3o do tradutor, a import\u00e2ncia de Donne ser\u00e1 apresentada finalmente ao p\u00fablico leitor brasileiro. \u00c9 uma nova chance de mergulhar em um universo pontuado pelas reflex\u00f5es do autor sobre a perenidade da vida e a prepara\u00e7\u00e3o do corpo e do esp\u00edrito pra o encontro final com o criador. O poeta, prosador e cl\u00e9rigo Donne pertence \u00e0 ilustre linhagem dos poetas barrocos, escola a que pertencem, tamb\u00e9m, no campo da poesia, o italiano Giambattista Marino e os espanh\u00f3is Lu\u00eds de G\u00f4ngora e Francisco de Quevedo. Como j\u00e1 disse antes, seus textos t\u00eam estilo esmerado e linguagem ilustrada. Sua sintaxe \u00e9 intensa &#8211; anda sempre de m\u00e3os dadas com as hip\u00e9rboles -, sem descuidar das ant\u00edteses e dos hip\u00e9rbatos. S\u00e3o muitos comuns, ainda, os vocativos e as repeti\u00e7\u00f5es. V\u00edtima de um mal grav\u00edssimo, Donne registrava suas medita\u00e7\u00f5es como elos de uma cadeia maior, o livro &#8220;&#8221;Devo\u00e7\u00f5es para Ocasi\u00f5es Emergentes&#8221;&#8221;. Os textos foram publicados em 1624. Cyrino afirma que talvez o ponto mais marcante da literatura do s\u00e9culo XVII ocorre quando o estilo de Donne muda de poesia amorosa para poesia secular e religiosa. Surgem, da\u00ed, conclus\u00f5es filos\u00f3ficas de grande impacto sobre o sentido da vida e da morte. Mas Donne n\u00e3o ocupava-se apenas de dores espirituais. O corpo feminino tamb\u00e9m lhe inflamou o cora\u00e7\u00e3o, inspirando-lhe versos que n\u00e3o podem deixar de figurar em qualquer antologia de poesia amorosa ou er\u00f3tica que reinvidique selo de qualidade. Recordemos alguns versos inolvid\u00e1veis de sua bel\u00edssima &#8220;&#8221;Elegia: Indo para o leito&#8221;&#8221;: Deixa que minha m\u00e3o errante adentre. Atr\u00e1s, na frente, em cima em baixo, entre. Minha Am\u00e9rica! Minha terra \u00e0 vista. Reino de paz, se um homem s\u00f3 a conquista. Minha mina preciosa, meu imp\u00e9rio, feliz de quem penetre o teu mist\u00e9rio! Liberto-me ficando teu escravo; onde cai minha m\u00e3o, meu selo gravo. Nudez total! Todo prazer prov\u00e9m de um corpo (como a alma sem corpo) sem vestes. As j\u00f3ias que a mulher ostenta s\u00e3o como as bolas de ouro de Atlanta: o olho de tolo que uma gema inflama ilude-se com ela e perde a dama. Como encaderna\u00e7\u00e3o vistosa, feita para iletrados, a mulher se enfeita; mas ela \u00e9 um livro m\u00edstico e somente a alguns (a que tal gra\u00e7a se consente) \u00e9 dado l\u00ea-la. Eu sou um que sabe. &#8221;<\/p>\n<p>O NORTE, DE JO\u00c3O PESSOA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;por William Costa Os jornais noticiam todas as manh\u00e3s centenas ou milhares de mortes no mundo inteiro. A singularidade das ocorr\u00eancias nutre o espet\u00e1culo di\u00e1rio da m\u00eddia e implode momentaneamente a frialdade da alma deste terceiro mil\u00eanio, despertando seus olhos opacos para o drama humano, que n\u00e3o ocorre num planeta distante de uma gal\u00e1xia qualquer,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"class_list":{"0":"post-670","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"hentry","6":"category-48","8":"description-off"},"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=670"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/670\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":671,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/670\/revisions\/671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}