{"id":871,"date":"2022-02-14T10:02:07","date_gmt":"2022-02-14T13:02:07","guid":{"rendered":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/?p=871"},"modified":"2022-02-14T10:02:07","modified_gmt":"2022-02-14T13:02:07","slug":"21-06-2009-a-abadia-de-northanger-no-jornal-zero-hora-de-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/2022\/02\/14\/21-06-2009-a-abadia-de-northanger-no-jornal-zero-hora-de-porto-alegre\/","title":{"rendered":"21\/06\/2009 &#8211; A ABADIA DE NORTHANGER NO JORNAL ZERO HORA, DE PORTO ALEGRE"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Chega \u00e0s livrarias edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue de \u201cA Abadia de Northanger\u201d, romance da escritora inglesa Jane Austen<\/p>\n<p>Se a primeira impress\u00e3o \u00e9 a que fica, n\u00e3o h\u00e1 muito a se esperar de Catherine Morland. Logo na primeira frase do romance que conta sua hist\u00f3ria, a autora diz: \u201cNingu\u00e9m que tenha visto Catherine Morland em sua inf\u00e2ncia poderia supor que ela tivesse nascido para ser uma hero\u00edna\u201d. N\u00e3o satisfeita, ainda a descreve como pouco prendada e \u201cocasionalmente est\u00fapida\u201d, ao menos at\u00e9 chegar o tempo de encaracolar os cabelos e ansiar por bailes, quando passou a ler os livros que \u201cas hero\u00ednas devem ler\u201d, perdeu um pouco da timidez e tornou-se \u201cquase encantadora\u201d.<\/p>\n<p>Mas basta saber que a mocinha t\u00e3o cruamente descrita \u00e9 protagonista de A Abadia de Northanger, de Jane Austen (1775 \u2013 1817) que acaba de ganhar edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue, ainda que com uma tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas que deixe a desejar, para deduzir que Catherine e sua aparente inaptid\u00e3o para o hero\u00edsmo fazem parte de mais um ir\u00f4nico retrato da sociedade inglesa e seus conflitos de classe no in\u00edcio do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Tudo bem, um retrato nem de longe t\u00e3o delicioso, se comparado aos cl\u00e1ssicos austinianos Orgulho e Preconceito e Raz\u00e3o e Sensibilidade. A Abadia de Northanger (Landmark, 288 p\u00e1ginas, pre\u00e7o m\u00e9dio de R$ 41), livro que andava dif\u00edcil de se encontrar em portugu\u00eas, segue o script b\u00e1sico da obra de Jane Austen, apontada como uma das escritoras mais importantes da l\u00edngua inglesa: a trama acompanha uma garota em busca do amor e, neste percurso, revela o que h\u00e1 de rid\u00edculo, pomposo, terno, inocente e cruel por tr\u00e1s das mesuras e rapap\u00e9s da \u00e9poca. Mas, se a saga desta vez carece de um conflito interessante, diverte ao desnudar seus personagens \u2013 a come\u00e7ar pela mocinha. Desta vez, a autora n\u00e3o faz uso da perspic\u00e1cia da hero\u00edna \u2013 como os coment\u00e1rios sagazes de Elizabeth Bennet ou o bom senso a toda prova de Elinor Dashwood \u2013, mas justamente da ingenuidade de Catherine e de tudo aquilo que custa a ver. (A melhor amiga n\u00e3o \u00e9 interesseira, e se o amor dela arrefece ao descobrir a modesta renda do noivo \u00e9 apenas por que julgou mal os pr\u00f3prios sentimentos&#8230;)<\/p>\n<p>O romance tamb\u00e9m revela uma Jane Austen muito mais presente na narra\u00e7\u00e3o, fazendo uso da hist\u00f3ria para uma apaixonada defesa do g\u00eanero romance \u2013 inclusive para cavalheiros! \u2013, dedicando quatro cap\u00edtulos a um deboche dos excessos do romance g\u00f3tico e ainda brindando o leitor com divertidas interfer\u00eancias. Depois de dizer que a afei\u00e7\u00e3o do mocinho fundamentava-se principalmente no fato de Catherine gostar dele, comenta: \u201c\u00c9 uma nova circunst\u00e2ncia em romance, reconhe\u00e7o (&#8230;), mas, se for t\u00e3o novo para a vida comum, o cr\u00e9dito de uma louca imagina\u00e7\u00e3o ser\u00e1, pelo menos, totalmente meu.\u201d<\/p>\n<p>A Abadia de Northanger foi o terceiro romance escrito por Jane, que vendeu os direitos da obra ent\u00e3o intitulada Susan em 1803 por 10 libras. O editor, contudo, n\u00e3o lan\u00e7ou o livro nem deu maiores explica\u00e7\u00f5es. Em 1816, o irm\u00e3o de Jane, Henry, readquiriu os direitos sobre Susan, e a autora revisou a hist\u00f3ria e rebatizou a hero\u00edna como Catherine. Mas morreu antes da publica\u00e7\u00e3o do livro, no ano seguinte, em conjunto com a novela Persuas\u00e3o. Assim chegou ao p\u00fablico a hist\u00f3ria da jovem filha de um cl\u00e9rigo (como a pr\u00f3pria Jane) que, em visita ao balne\u00e1rio de Bath (local frequentado pela fam\u00edlia da escritora) testa seus parcos conhecimentos sobre o mundo e as pessoas enquanto cai de amores por um distinto rapaz e recebe o convite para visitar a assustadora, pensa ela, abadia da fam\u00edlia dele.<\/p>\n<p>Na primeira edi\u00e7\u00e3o, havia um pedido de desculpas pelo hiato de 13 anos entre a escritura e a publica\u00e7\u00e3o da obra, j\u00e1 que, durante este per\u00edodo, \u201clugares, costumes, livros e opini\u00f5es passaram por consider\u00e1veis mudan\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, passados dois s\u00e9culos, os costumes, de fato, mudaram radicalmente, mas o valor e a atualidade da literatura de Jane Austen permanecem. Basta ver como a obra da autora ainda inspira o cinema e a TV: foram 44 adapta\u00e7\u00f5es desde 1938, sem contar outras duas que est\u00e3o por vir. Essa atemporalidade se deve \u00e0 ess\u00eancia dos romances de Austen em que, descontados pruridos e galanteios datados, revela-se o que h\u00e1 de mais humano e perene nas idiossincrasias amorosas e no jogo de interesses em sociedade. Sem contar as deliciosas ironias que, mesmo em livros sempre predestinados aos finais felizes, n\u00e3o poupam sequer o amor. J\u00e1 foi dito que Jane n\u00e3o deixava hero\u00edna sem par justamente para viver na fic\u00e7\u00e3o aquilo que ela n\u00e3o teve em vida \u2013 a escritora morreu solteira, aos 41 anos. Essa seria uma vers\u00e3o rom\u00e2ntica em que Catherine adoraria acreditar.<\/p>\n<p>PATR\u00cdCIA ROCHA &#8220;JORNAL ZERO HORA (RS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Chega \u00e0s livrarias edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue de \u201cA Abadia de Northanger\u201d, romance da escritora inglesa Jane Austen Se a primeira impress\u00e3o \u00e9 a que fica, n\u00e3o h\u00e1 muito a se esperar de Catherine Morland. 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