{"id":914,"date":"2022-02-14T10:17:09","date_gmt":"2022-02-14T13:17:09","guid":{"rendered":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/?p=914"},"modified":"2022-02-14T10:17:09","modified_gmt":"2022-02-14T13:17:09","slug":"26-02-2009-o-retrato-de-dorian-gray-no-jornal-do-commercio-de-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editoralandmark.com.br\/v2.0\/2022\/02\/14\/26-02-2009-o-retrato-de-dorian-gray-no-jornal-do-commercio-de-porto-alegre\/","title":{"rendered":"26\/02\/2009 &#8211; O RETRATO DE DORIAN GRAY NO JORNAL DO COMMERCIO DE PORTO ALEGRE"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Eduardo Lanius<\/p>\n<p>A voga da fic\u00e7\u00e3o protagonizada por escritores do passado parece longe de ter fim. Depois de Giulio Leoni reviver Dante Alighieri em &#8220;&#8221;Os Crimes da Medusa&#8221;&#8221;, Matthew Pearl se servir do autor de &#8220;&#8221;O Corvo&#8221;&#8221; em &#8220;&#8221;A Sombra de Allan Poe&#8221;&#8221; e Louis Bayard igualmente utiliz\u00e1-lo como personagem em &#8220;&#8221;O P\u00e1lido Olho Azul&#8221;&#8221;, \u00e9 a vez de Oscar Wilde (1854-1900) ficar sob os holofotes. O criador de &#8220;&#8221;A Import\u00e2ncia de Ser Prudente&#8221;&#8221; e &#8220;&#8221;Salom\u00e9&#8221;&#8221; est\u00e1 no centro de &#8220;&#8221;Oscar Wilde e os Assassinatos \u00e0 Luz de Velas&#8221;&#8221; (Ediouro, tradu\u00e7\u00e3o de D\u00e9bora da Silva Guimar\u00e3es, 304 p\u00e1ginas, R$ 49,90), de Gyles Brandreth, lan\u00e7ado no mesmo momento em que uma reedi\u00e7\u00e3o do \u00fanico romance de Wilde volta ao mercado brasileiro. &#8220;&#8221;O Retrato de Dorian Gray&#8221;&#8221; (Landmark, tradu\u00e7\u00e3o e notas de Marcella Furtado, 240 p\u00e1ginas, R$ 34,00) oferece, ao contr\u00e1rio das demais vers\u00f5es dispon\u00edveis nas livrarias, o atrativo do texto em ingl\u00eas ao lado do portugu\u00eas e a \u00edntegra do manuscrito original, publicado na revista Lippincott\u2019s Monthly Magazine (estampado em cap\u00edtulos seriados em 1890, difere bastante do que se tornou conhecido pelo p\u00fablico leitor no volume impresso em 1891).<\/p>\n<p>&#8220;&#8221;Oscar Wilde e os Assassinatos \u00e0 Luz de Velas&#8221;&#8221; \u00e9 um romance policial redigido de maneira bem convencional, na linha dos best-sellers citados (\u00e9 poss\u00edvel prop\u00f4-los quase todos dentro de um r\u00f3tulo \u201chist\u00f3rico-cultural\u201d, retomada epid\u00e9rmica e quase cinematogr\u00e1fica de um subg\u00eanero de narrativa que j\u00e1 deu, em seus melhores dias, &#8220;&#8221;A Obra em Negro&#8221;&#8221;, de Marguerite Yourcenar, e que desaguou, em seus piores instantes, em &#8220;&#8221;O C\u00f3digo Da Vinci&#8221;&#8221;, de Dan Brown, emblem\u00e1tico dessa vertente esquem\u00e1tica e pronta para consumo imediato). Robert Sherard, amigo de Wilde, registra a aventura pela qual o escritor irland\u00eas passou meio s\u00e9culo antes e que, na condi\u00e7\u00e3o de pessoa pr\u00f3xima, testemunhou. Sherard faz as vezes de John Watson, o amigo de Sherlock Holmes que lhe deu fama ao funcionar como \u201cbi\u00f3grafo\u201d. Arthur Conan Doyle, o leg\u00edtimo \u201cpai\u201d de Holmes, \u00e9 outro dos tipos a frequentar a narrativa longa de Brandreth, que explora a morte brutal de um garoto de programa e a investiga\u00e7\u00e3o que se segue &#8211; Billy Wood, o rapaz, era pupilo de Wilde, que, em respeito a sua mem\u00f3ria, toma para si a tarefa de descobrir o que houve.<\/p>\n<p>&#8220;&#8221;O Retrato de Dorian Gray&#8221;&#8221; \u00e9 o item mais difundido de uma bibliografia que contempla, al\u00e9m deste romance, poesia, conto, ensaio e, claro, as pe\u00e7as que celebrizaram Wilde (O Leque de Lady Windermere, Uma Mulher Sem Import\u00e2ncia, Um Marido Ideal e A Import\u00e2ncia de Ser Prudente tiveram montagem no mundo inteiro). Visto como \u00faltimo exemplar de romance g\u00f3tico, conta a hist\u00f3ria de Dorian Gray, jovem de tra\u00e7os perfeitos cujo retrato, pintado soberbamente por Basil Hallward, come\u00e7a a envelhecer \u00e0 medida que os anos transcorrem &#8211; e mostra cada vez mais as torpezas de um car\u00e1ter que, fisicamente, preserva o frescor dos melhores dias. Gray, em uma esp\u00e9cie de pacto de Fausto, mant\u00e9m a jovialidade, mas o retrato, que guarda escondido, espelha sua face real. Alguns dos aforismos luminosos de Wilde podem ser rastreados na urdidura do romance, de \u201cescolho meus amigos pela boa apar\u00eancia, meus conhecidos pelo car\u00e1ter e meus inimigos pela intelig\u00eancia\u201d a \u201capenas as pessoas superficiais n\u00e3o julgam pela apar\u00eancia &#8211; o verdadeiro mist\u00e9rio do mundo \u00e9 o vis\u00edvel, n\u00e3o o invis\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Cem anos ap\u00f3s seu falecimento, Wilde desperta o mesmo encantamento que seduziu gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 bem prov\u00e1vel que o uso reiterado da frase de brilho f\u00e1cil n\u00e3o obtenha o desejado efeito, como uma piada muito repetida n\u00e3o atinge o espectador do jeito que se gostaria. &#8220;&#8221;O Retrato de Dorian Gray&#8221;&#8221;, feitas essas ressalvas, \u00e9 puro Wilde, inteligente e espirituoso, simb\u00f3lico e cheio de humor. J\u00e1 &#8220;&#8221;Oscar Wilde e os Assassinatos \u00e0 Luz de Velas&#8221;&#8221; faz parte de um fil\u00e3o aproveitador, em que pouco se salva (a exce\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;&#8221;O Nome da Rosa&#8221;&#8221;, de Umberto Eco, que combina erudi\u00e7\u00e3o, reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e intriga policial). O Wilde de Brandreth soa artificial, tanto nas passagens em que \u201cencarna\u201d Sherlock Holmes quanto na sem-cerim\u00f4nia com que trata Conan Doyle (um \u201cmelhor amigo de inf\u00e2ncia\u201d em tempo recorde). O tom \u00e9 falso, algo problem\u00e1tico para uma fic\u00e7\u00e3o que precisa ser veross\u00edmil para convencer. A prop\u00f3sito: em 2009, estrear\u00e1 nos cinemas uma nova adapta\u00e7\u00e3o de &#8220;&#8221;O Retrato de Dorian Gray&#8221;&#8221;, com dire\u00e7\u00e3o de Oliver Parker e estrelado por Ben Barnes, Colin Firth e Fiona Shaw. &#8221;<\/p>\n<p>JORNAL DO COMMERCIO DE PORTO ALEGRE (RS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eduardo Lanius A voga da fic\u00e7\u00e3o protagonizada por escritores do passado parece longe de ter fim. 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